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publicado por wellcorp às 05:13 | link do post
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Das profundezas

Baseado em certa mudança de andar de antiga equipe de uma empresa brasileira...

A ata de reunião que decidia a mudança de andar da galera de estimativa de custos foi despachada perto da meia-noite. A tradicional reunião de reorganização anual do prédio em que ficavam os departamentos de Engenharia fora realmente, muito tensa. Três comitês e doze propostas foram agressivamente debatidas pelo grupo gerencial por quase três horas. A crescente taxa de ocupação do prédio, assim como as alegações de futuras demandas de pessoal, em função do crescimento exponencial da empresa, geraram a necessidade de soluções de alocação de gente realmente radicais. Para otimização de custos, o prédio também reunia, além de Servidores de Dados da empresa, vasta rede de laboratórios. Incluindo um especial de geologia das profundezas - Criado para estudos sísmicos - Resumindo a dita reunião, por apertadíssima votação, venceu a proposta de colocar a equipe de Estimativa ao lado do dito laboratório.
    O laboratório ficava cerca de 23 Km de distância. Linha reta em direção ao centro da terra.

Sim.
A vinte e três quilômetros de profundidade.
   
O gerente do setor de Estimativa de Custos tremia ao ler a ata de reunião. Uma secretária desmaiou com a notícia e um dos orçamentistas do grupo teve uma súbita queda de pressão arterial. O prazo para mudança era de três dias. O gerente ainda tentou negociar. A outra opção também não era muito vantajosa. A equipe não foi informada sobre a segunda possibilidade, mas não ousou perguntar em virtude do olhar aterrorizado do gerente setorial. 
    Às sete horas da manhã de uma quinta-feira, sete pessoas entraram com suas caixas repletas de papeis no elevador – 76 (Menos Setenta e Seis). Tinha um ascensorista que os olhou com muita compaixão quando o grupo, formado de três homens e quatro mulheres, entrou no elevador. “–76” significava: “setenta e seis andares negativos”.  A descida não demorou tanto quanto o esperado. A expectativa na abertura da porta do elevador era intensa, alguns engoliam em seco. As portas se abriram a setenta e seis andares abaixo da linha do solo. Havia ali um longo corredor e uma vasta rede de tubulações. As paredes eram absolutamente escuras, talhadas na rocha,  na maioria de sua superfície estava coberta por fina camada líquida e quente de água de estranho aspecto. No final do lúgubre corredor havia uma espécie de trem suspenso por grossos cabos. Possuía oito lugares. Certa voz metalizada solicitou que colocassem os cintos de segurança enquanto as cabines eram cobertas automaticamente por vidros esfumaçados. Os cabos tensionados começaram a tremer e com um impulso fenomenal o veículo começou seu movimento espectral. Para baixo e avante. Aos quatrocentos km/h a estrutura do bólido rangia como fosse se partir. Talvez fosse. Porém, suportou bem a desaceleração. Viu-se a plataforma que estava suspensa sobre um determinado abismo na primeira parada. As portas se fecharam após a passagem do pequeno veículo e um sistema de pressurização ruidoso entrou em funcionamento. Dois operadores da “Passagem para o Abismo” como eles chamavam a estação de transferência, vestidos com roupas especiais, para suportar altas temperaturas, recepcionou o a equipe desconfiada. O grupo vestiu também roupas especiais, monidas de capacetes transparentes que encobriam toda a cabeça, como escafrandos, enquanto ouviam uma assustadora palestra de segurança que os ensinava a utilizar o suporte de vida do traje, em caso de emergências. Certo alarme começou a ecoar e atrapalhar a palestra, mas o auxiliar de segurança da “Passagem” continuou sua dissertação como se nada estivesse ocorrendo. Foram conduzidos até um elevador de carga. Com porta pantográfica. Vestidos como astronautas desceram cerca de 800 metros até a passagem numero 2, onde um mecânico de manutenção os aguardava.  Passaram por centenas de tubos suspensos e uma nuvem de vapor os cobriu na entrada do “Mergulhador”. Mergulhador era o nome do veiculo que descia verticalmente até o setor 23. Tinha uma aparência estranha, com partes azuladas do metal, algumas tubulações de aço, doze eletroímãs espalhados com bobinas feitas por barras de buckypaper (vinte vezes mais forte que o aço). O fato é que o Mergulhador era basicamente uma liga de titânio e tungstênio. Os imãs serviam para acelerar, frear e impedir que veículo encostasse-se às paredes do túnel na hora de descida. As portas do veículo se abriram, mas ninguém ousou entrar. Até que ouviram a primeira explosão. Alguma coisa havia explodido, e o que quer que fosse fez a plataforma tremer. Assustados entraram e o veículo deu início, após travar as portas a seqüência de lançamento negativo. Uma das moças da equipe levou a mão à boca e disse:

- Acho que vou...

Não teve tempo de terminar a frase... O veículo abruptamente se deslocou. Então entenderam porque o chamavam de mergulhador.
Havia um termômetro digital que marcava 230 graus na parede do veículo. Uma das tubulações hidráulicas internas começou a vazar, quando o mecânico que estava a bordo começou a bater nos tubos com uma enorme chave inglesa. O marcador de pressão a esquerda chegou no vermelho quando as luzes de alerta próximas ao teto da cabina se acenderam. O ruído da desaceleração foi ensurdecedor. Havia janelas ou escotilhas que iniciaram a trincar à esquerda e a direita dos assustados membros da equipe. Então a porta de acesso abriu, e por um instante todo o interior da cabine se tornou avermelhada, no instante da pressurização...

São três horas da tarde. Sete pessoas assustadas saltam no primeiro andar enquanto o ascensorista do -76 lhes sorri, com oportuna afeição.  As caixas haviam queimado na abertura da porta do Mergulhador, por sorte o mecânico conseguiu reaver o comando do módulo... Uma das integrantes larga no chão uma caneta bic derretida.

O ascensorista sorri e lhes acena:

- Até amanhã!!!

Então, as portas do -76 se fecham.





Welington José Ferreira
publicado por wellcorp às 04:54 | link do post
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Das profundezas

Baseado em certa mudança de andar de antiga equipe de uma empresa brasileira...

A ata de reunião que decidia a mudança de andar da galera de estimativa de custos foi despachada perto da meia-noite. A tradicional reunião de reorganização anual do prédio em que ficavam os departamentos de Engenharia fora realmente, muito tensa. Três comitês e doze propostas foram agressivamente debatidas pelo grupo gerencial por quase três horas. A crescente taxa de ocupação do prédio, assim como as alegações de futuras demandas de pessoal, em função do crescimento exponencial da empresa, geraram a necessidade de soluções de alocação de gente realmente radicais. Para otimização de custos, o prédio também reunia, além de Servidores de Dados da empresa, vasta rede de laboratórios. Incluindo um especial de geologia das profundezas - Criado para estudos sísmicos - Resumindo a dita reunião, por apertadíssima votação, venceu a proposta de colocar a equipe de Estimativa ao lado do dito laboratório.
    O laboratório ficava cerca de 23 Km de distância. Linha reta em direção ao centro da terra.

Sim.
A vinte e três quilômetros de profundidade.
   
O gerente do setor de Estimativa de Custos tremia ao ler a ata de reunião. Uma secretária desmaiou com a notícia e um dos orçamentistas do grupo teve uma súbita queda de pressão arterial. O prazo para mudança era de três dias. O gerente ainda tentou negociar. A outra opção também não era muito vantajosa. A equipe não foi informada sobre a segunda possibilidade, mas não ousou perguntar em virtude do olhar aterrorizado do gerente setorial. 
    Às sete horas da manhã de uma quinta-feira, sete pessoas entraram com suas caixas repletas de papeis no elevador – 76 (Menos Setenta e Seis). Tinha um ascensorista que os olhou com muita compaixão quando o grupo, formado de três homens e quatro mulheres, entrou no elevador. “–76” significava: “setenta e seis andares negativos”.  A descida não demorou tanto quanto o esperado. A expectativa na abertura da porta do elevador era intensa, alguns engoliam em seco. As portas se abriram a setenta e seis andares abaixo da linha do solo. Havia ali um longo corredor e uma vasta rede de tubulações. As paredes eram absolutamente escuras, talhadas na rocha,  na maioria de sua superfície estava coberta por fina camada líquida e quente de água de estranho aspecto. No final do lúgubre corredor havia uma espécie de trem suspenso por grossos cabos. Possuía oito lugares. Certa voz metalizada solicitou que colocassem os cintos de segurança enquanto as cabines eram cobertas automaticamente por vidros esfumaçados. Os cabos tensionados começaram a tremer e com um impulso fenomenal o veículo começou seu movimento espectral. Para baixo e avante. Aos quatrocentos km/h a estrutura do bólido rangia como fosse se partir. Talvez fosse. Porém, suportou bem a desaceleração. Viu-se a plataforma que estava suspensa sobre um determinado abismo na primeira parada. As portas se fecharam após a passagem do pequeno veículo e um sistema de pressurização ruidoso entrou em funcionamento. Dois operadores da “Passagem para o Abismo” como eles chamavam a estação de transferência, vestidos com roupas especiais, para suportar altas temperaturas, recepcionou o a equipe desconfiada. O grupo vestiu também roupas especiais, monidas de capacetes transparentes que encobriam toda a cabeça, como escafrandos, enquanto ouviam uma assustadora palestra de segurança que os ensinava a utilizar o suporte de vida do traje, em caso de emergências. Certo alarme começou a ecoar e atrapalhar a palestra, mas o auxiliar de segurança da “Passagem” continuou sua dissertação como se nada estivesse ocorrendo. Foram conduzidos até um elevador de carga. Com porta pantográfica. Vestidos como astronautas desceram cerca de 800 metros até a passagem numero 2, onde um mecânico de manutenção os aguardava.  Passaram por centenas de tubos suspensos e uma nuvem de vapor os cobriu na entrada do “Mergulhador”. Mergulhador era o nome do veiculo que descia verticalmente até o setor 23. Tinha uma aparência estranha, com partes azuladas do metal, algumas tubulações de aço, doze eletroímãs espalhados com bobinas feitas por barras de buckypaper (vinte vezes mais forte que o aço). O fato é que o Mergulhador era basicamente uma liga de titânio e tungstênio. Os imãs serviam para acelerar, frear e impedir que veículo encostasse-se às paredes do túnel na hora de descida. As portas do veículo se abriram, mas ninguém ousou entrar. Até que ouviram a primeira explosão. Alguma coisa havia explodido, e o que quer que fosse fez a plataforma tremer. Assustados entraram e o veículo deu início, após travar as portas a seqüência de lançamento negativo. Uma das moças da equipe levou a mão à boca e disse:

- Acho que vou...

Não teve tempo de terminar a frase... O veículo abruptamente se deslocou. Então entenderam porque o chamavam de mergulhador.
Havia um termômetro digital que marcava 230 graus na parede do veículo. Uma das tubulações hidráulicas internas começou a vazar, quando o mecânico que estava a bordo começou a bater nos tubos com uma enorme chave inglesa. O marcador de pressão a esquerda chegou no vermelho quando as luzes de alerta próximas ao teto da cabina se acenderam. O ruído da desaceleração foi ensurdecedor. Havia janelas ou escotilhas que iniciaram a trincar à esquerda e a direita dos assustados membros da equipe. Então a porta de acesso abriu, e por um instante todo o interior da cabine se tornou avermelhada, no instante da pressurização...

São três horas da tarde. Sete pessoas assustadas saltam no primeiro andar enquanto o ascensorista do -76 lhes sorri, com oportuna afeição.  As caixas haviam queimado na abertura da porta do Mergulhador, por sorte o mecânico conseguiu reaver o comando do módulo... Uma das integrantes larga no chão uma caneta bic derretida.

O ascensorista sorri e lhes acena:

- Até amanhã!!!

Então, as portas do -76 se fecham.





Welington José Ferreira
publicado por wellcorp às 04:54 | link do post
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 O menino e o relógio

O garoto franzino com ascendência indígena corre como o vento noroeste pelo pequeno apartamento, carregando em suas pequenas mãos escondido entre seus dedos trêmulos seu pequeno tesouro surrupiado. Sua respiração ofegante e seus olhos atentos de pupilas castanho-esverdeadas denunciam sua inquietação. O pequeno apartamento onde mora não lhe oferece o refugio adequado às suas destrutivas intenções. Vasculha a sala, vê as moças escolhendo fotos nos magazines de moda de sua mãe costureira, que pinta traços vermelhos no papel pardo para definir os moldes das roupas tecidas sobre a mesa.
Ele sabe que ali não seria o lugar de seu ato mágico. Entra num dos quartos e surpreende outra freguesa que faz a prova de um vestido verde-limão, sorrindo para sua imagem elegante e esguia refletida no espelho de cristal que pertencera a sua tia-avó.
Sabe que ali também não seria o lugar de seu ato mágico. Finalmente, como a personagem Lúcia das crônicas de C.S.Lewis, vislumbra o humilde armário de duas portas no segundo quarto, encostado na parede pêssego, enfeitada com decalques feitos por rolo de pintor. Entra suas portas, fechando-a em seguida, deixando-se envolver por densa escuridão, entre cabides, vestidos, meias, calças de brim. Suando em bicas, por causa do intenso calor daquela tarde de verão perdida no tempo.
Na sombra do velho armário ele se entrega a irrealizável tarefa de desmontar o inconfundível objeto. O relógio despertador que pegara sobre a cômoda ao lado da cama de seus pais. Instrumento de medir o tempo anterior aos relógios digitais, absoluto em mecanismos da antiga arte da relojoaria mecânica, pleno de pequeninas e exatas peças.
Com movimentos impossíveis, desprovido de ferramentas, auxiliado por fortes dentes, desmonta pacientemente as engrenagens que definem o tempo, enquanto sua mãe vasculha os cômodos à sua procura. O sol se põe sobre a terra quando certa hora este coloca para fora do armário sua cabeça suada com cabelos desgrenhados, olhar de cientista louco. O pedaço de gente sai com dezenas de peças em suas habilidosas mãos.
Então, com sorriso de um guerreiro vitorioso, senta-se no chão de tacos de madeira, afastando as peças: os ponteiros; o espelho; o vidro; a mola em espiral; os parafusos; separando assim a preciosa engrenagem central com o polegar e o indicador.
Ele então a posiciona no assoalho, com seu eixo tocando o piso e a borda dentada como uma asa estendida paralela ao chão de madeira.
Num vigoroso movimento a gira... Qual um pião perfeito que desconhece a resistência do ar. A exata engrenagem gira incansável, desprezando o tempo que um dia ajudou a medir. Até que sua mãe, horrorizada com a morte do bravo relógio, observa atônita a tragédia espalhada no piso do quarto, essa mesma do despertador perdido, que seu filho com as mãos desnudas, num ato de ciência que mais parecia magia, desmontou...

Só pra fazer um pião... 


The skinny kid with indigenous descent runs like the wind northwest to the small apartment, pressing his small hands hidden in his trembling fingers pinched her little treasure. His breathing and his eyes alert to greenish-brown eyes betray his uneasiness. The small apartment where he lives does not offer the appropriate refuge to their destructive intentions. Search inside the room, sees the girls picking photos for fashion magazines in her mother's seamstress, who paints red streaks in brown paper to define the terms of weaved cloth on the table.

He knows that there would not be the place of his magic act. Enter one of the rooms and other surprises customer who makes a test of a lime green dress, smiling at her slim and slender reflected in the mirror glass that belonged to her great-aunt.

Know that there would not be the place of his magic act. Finally, as the character Lucy chronicles of CS Lewis, sees the humble two-door cabinet in the second quarter against the wall peach, festooned with decals made by roll of painter. Enter your doors, closing it and then soak up the thick darkness, between hangers, dresses, socks, jeans. Sweating profusely, because of the intense heat of that summer afternoon lost in time.

In the shadow of the old cabinet he delivers the impossible task of dismantling the unmistakable object. The alarm clock that picks up on the dresser beside the bed of their parents. Instrument to measure the time before the digital clocks, absolute mechanisms of the ancient art of mechanical watch, full of tiny, precise parts.

With movement impossible, lacking tools, helped by strong teeth, patiently dismantles the gears that define the time, while his mother searches the rooms looking for her. The sun sets over the land when some hours this put out of the closet with your head sweaty disheveled hair, look of mad scientist. The portion of people out with dozens of pieces in their skillful hands.

Then, with smile of a victorious warrior, sits on the floor of parquet flooring, moving parts: the hands, the mirror, the glass, the coil spring, bolts, separating the precious central gear with the thumb and indicator.

He then places it on the floor, with its axis touching the floor and the edge bite as an extended wing parallel to the wooden floor.

In a vigorous movement to turn ... What a perfect pawn that ignores air resistance. The exact gear turns restless, despising the time a day helped to measure. Until his mother, horrified at the death of the brave clock, there stunned the tragedy spread on the floor of the room, the same clock lost her son with bare hands in an act of science that was more like magic, dismantled ...


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publicado por wellcorp às 10:16 | link do post
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 O menino e o relógio

O garoto franzino com ascendência indígena corre como o vento noroeste pelo pequeno apartamento, carregando em suas pequenas mãos escondido entre seus dedos trêmulos seu pequeno tesouro surrupiado. Sua respiração ofegante e seus olhos atentos de pupilas castanho-esverdeadas denunciam sua inquietação. O pequeno apartamento onde mora não lhe oferece o refugio adequado às suas destrutivas intenções. Vasculha a sala, vê as moças escolhendo fotos nos magazines de moda de sua mãe costureira, que pinta traços vermelhos no papel pardo para definir os moldes das roupas tecidas sobre a mesa.
Ele sabe que ali não seria o lugar de seu ato mágico. Entra num dos quartos e surpreende outra freguesa que faz a prova de um vestido verde-limão, sorrindo para sua imagem elegante e esguia refletida no espelho de cristal que pertencera a sua tia-avó.
Sabe que ali também não seria o lugar de seu ato mágico. Finalmente, como a personagem Lúcia das crônicas de C.S.Lewis, vislumbra o humilde armário de duas portas no segundo quarto, encostado na parede pêssego, enfeitada com decalques feitos por rolo de pintor. Entra suas portas, fechando-a em seguida, deixando-se envolver por densa escuridão, entre cabides, vestidos, meias, calças de brim. Suando em bicas, por causa do intenso calor daquela tarde de verão perdida no tempo.
Na sombra do velho armário ele se entrega a irrealizável tarefa de desmontar o inconfundível objeto. O relógio despertador que pegara sobre a cômoda ao lado da cama de seus pais. Instrumento de medir o tempo anterior aos relógios digitais, absoluto em mecanismos da antiga arte da relojoaria mecânica, pleno de pequeninas e exatas peças.
Com movimentos impossíveis, desprovido de ferramentas, auxiliado por fortes dentes, desmonta pacientemente as engrenagens que definem o tempo, enquanto sua mãe vasculha os cômodos à sua procura. O sol se põe sobre a terra quando certa hora este coloca para fora do armário sua cabeça suada com cabelos desgrenhados, olhar de cientista louco. O pedaço de gente sai com dezenas de peças em suas habilidosas mãos.
Então, com sorriso de um guerreiro vitorioso, senta-se no chão de tacos de madeira, afastando as peças: os ponteiros; o espelho; o vidro; a mola em espiral; os parafusos; separando assim a preciosa engrenagem central com o polegar e o indicador.
Ele então a posiciona no assoalho, com seu eixo tocando o piso e a borda dentada como uma asa estendida paralela ao chão de madeira.
Num vigoroso movimento a gira... Qual um pião perfeito que desconhece a resistência do ar. A exata engrenagem gira incansável, desprezando o tempo que um dia ajudou a medir. Até que sua mãe, horrorizada com a morte do bravo relógio, observa atônita a tragédia espalhada no piso do quarto, essa mesma do despertador perdido, que seu filho com as mãos desnudas, num ato de ciência que mais parecia magia, desmontou...

Só pra fazer um pião... 


The skinny kid with indigenous descent runs like the wind northwest to the small apartment, pressing his small hands hidden in his trembling fingers pinched her little treasure. His breathing and his eyes alert to greenish-brown eyes betray his uneasiness. The small apartment where he lives does not offer the appropriate refuge to their destructive intentions. Search inside the room, sees the girls picking photos for fashion magazines in her mother's seamstress, who paints red streaks in brown paper to define the terms of weaved cloth on the table.

He knows that there would not be the place of his magic act. Enter one of the rooms and other surprises customer who makes a test of a lime green dress, smiling at her slim and slender reflected in the mirror glass that belonged to her great-aunt.

Know that there would not be the place of his magic act. Finally, as the character Lucy chronicles of CS Lewis, sees the humble two-door cabinet in the second quarter against the wall peach, festooned with decals made by roll of painter. Enter your doors, closing it and then soak up the thick darkness, between hangers, dresses, socks, jeans. Sweating profusely, because of the intense heat of that summer afternoon lost in time.

In the shadow of the old cabinet he delivers the impossible task of dismantling the unmistakable object. The alarm clock that picks up on the dresser beside the bed of their parents. Instrument to measure the time before the digital clocks, absolute mechanisms of the ancient art of mechanical watch, full of tiny, precise parts.

With movement impossible, lacking tools, helped by strong teeth, patiently dismantles the gears that define the time, while his mother searches the rooms looking for her. The sun sets over the land when some hours this put out of the closet with your head sweaty disheveled hair, look of mad scientist. The portion of people out with dozens of pieces in their skillful hands.

Then, with smile of a victorious warrior, sits on the floor of parquet flooring, moving parts: the hands, the mirror, the glass, the coil spring, bolts, separating the precious central gear with the thumb and indicator.

He then places it on the floor, with its axis touching the floor and the edge bite as an extended wing parallel to the wooden floor.

In a vigorous movement to turn ... What a perfect pawn that ignores air resistance. The exact gear turns restless, despising the time a day helped to measure. Until his mother, horrified at the death of the brave clock, there stunned the tragedy spread on the floor of the room, the same clock lost her son with bare hands in an act of science that was more like magic, dismantled ...


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publicado por wellcorp às 10:16 | link do post
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A HARMONIOSA E RELAXANTE ARTE DA DIGITÃO

Mem Ex Group

  • Digita essa planilha de
  • custos aqui também. Não esquece de totalizar as colunas e fazer a correção pela variação do dólar. Quanto ao outro texto, o da carta em inglês, preste atenção na carta manuscrita que eu estava com muita pressa na hora de escrever, e pode ser que tenha algum erro. Não esquece de corrigir. Com relação ao memorando, só se preocupe com a itemização, com a pontuação e com os termos técnicos. Sei que ele fala tubulações industriais e de vasos de pressão, mas os termos são normalizados. A normas de soldagem estão aqui. Olha, é tudo pra hoje, dá seu jeito.

Dizendo isso, o gerente saiu...


Aline olha espantada para a tela de seu ultrapassado computador. A tecla Shift já estava caindo de tanto levar pancada. Vez por outra a tela piscava e perdia a cor.

Olha para o relógio no canto da tela. Duas horas para o término do expediente.

Aline sua frio.

Abre quatro janelas ao mesmo tempo. Quase levando seu Windows 95 a bancarrota. Vai exigir mais do que sua poderosa máquina é capaz de outorgar. O telefone não para de tocar. Ela digita o texto em inglês no meio da planilha. Tenta corrigir e o Windows trava. Tenta reiniciar. Uma tela azul dizendo que o micro foi desligado incorretamente aparece. Um tal de Scandisk. Uma barra de execução para em 56 %. Setores ruins foram encontrados. Os olhos de Aline faíscam. Ela manda o software continuar. Ele pergunta se quer salvar as alterações num disquete. Cadê a caixa com disquetes? Sai da sala e vai até a secretaria do setor buscar disquetes. Não tem disquetes. Vai ao setor do outro corredor buscar disquetes. Quando volta o micro apagou. Acalme-se; diz a si mesma. Esbarrou no estabilizador. Religa o micro. Recomeça o suplício.

Enfim aparece a tela de início do Windows. E depois some.

Dois minutos de tensão.

Começa a entrar o Windows. Uma tela de logon solicitando senha aparece. Ela coloca a chave e a senha. Outro minuto de espera. O Windows diz que não tem nenhum servidor disponível pra efetuar o tal do logon.

Acalme-se Aline.

Ela tecla Enter

Aparece a tela de detecção automática de hardware. O Windows encontrou um novo componente. Como assim, novo componente? Ela tenta contornar o detetor, diz que não quer instalar nada. Aparece outra coisa detectada. E depois outra. Enfim começam a aparecer os ícones do sistema. Entra um aviso dizendo que a placa de vídeo está com problemas.

Acalme-se Aline.

O detector de vírus descobriu uma virose. Vírus de macro. No arquivo em que ela estava trabalhando. Quer limpar o arquivo? Ela responde que sim.

O antivírus apaga o arquivo.

Ela põe a testa sobre o mouse. Acaba clicando no ícone do correio. Infelizmente a rede não está entrando e o programa trava. A custa de muito CTRL-ALT-DEL ela destrava o Windows. Recomeça a digitar. Ferozmente. Aparece na porta o cara da CPD dizendo que vai ter um desligamento geral de dez minutos as três e quinze. Ela olha para o relógio. Duas e quarenta e cinco. O telefone toca novamente. Aparece uma tela azul dizendo que houve um erro de sistema. O coração congela. Ela dá um Enter sem esperança e o Windows volta. Acalme-se Aline. A menina da limpeza aparece e esbarra na mesa. Os papéis voam pelo chão. Acalme-se Aline. Dez minutos para o desligamento acontecer. Três dos textos estão adiantados, falta reformatar a tal planilha. A tecla "a" travou no meio do terceiro texto. Duas páginas e dois mil e quinhentos e vinte e dois "a"s depois ela consegue destravar. Quatro minutos para o desligamento. As luzes se apagam. Eles adiantaram o desligamento. O No-break resistiu bem. O micro ainda está ligado. Ela tem cinco minutos para salvar o que digitou antes de perder tudo. Quer dizer, teria se o indicador de energia do No-break indicasse plena carga e não 50%. Começa a tentar terminar e salvar os textos. O protetor de tela entra. Não, agora não, pensou. O No-break começa a piscar. Ela precisa de tempo! Pense Aline! Pense Aline. Decide desligar o monitor para economizar energia, fechar os programas e salvá-los às cegas. Quando está para digitar o último comando o No-break apaga por completo. Três segundos depois seria a vez do micro. Nessa hora a luz retorna. Ela reacende a tela e o último texto ainda está lá. Então suspira aliviada. Entra o gerente e avisa que devido a uma viagem pela manhã já não terá muita urgência dos memorandos. A tela azul de erro fatal do Windows aparece nesse momento. Ela fixa os olhos na tela azul e então olha para o gerente. Na sua mente só aparece a expressão:

Fatal error.

Fatal error.

Fatal error.

Fatal error

By WeLL

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A HARMONIOSA E RELAXANTE ARTE DA DIGITÃO

Mem Ex Group

  • Digita essa planilha de
  • custos aqui também. Não esquece de totalizar as colunas e fazer a correção pela variação do dólar. Quanto ao outro texto, o da carta em inglês, preste atenção na carta manuscrita que eu estava com muita pressa na hora de escrever, e pode ser que tenha algum erro. Não esquece de corrigir. Com relação ao memorando, só se preocupe com a itemização, com a pontuação e com os termos técnicos. Sei que ele fala tubulações industriais e de vasos de pressão, mas os termos são normalizados. A normas de soldagem estão aqui. Olha, é tudo pra hoje, dá seu jeito.

Dizendo isso, o gerente saiu...


Aline olha espantada para a tela de seu ultrapassado computador. A tecla Shift já estava caindo de tanto levar pancada. Vez por outra a tela piscava e perdia a cor.

Olha para o relógio no canto da tela. Duas horas para o término do expediente.

Aline sua frio.

Abre quatro janelas ao mesmo tempo. Quase levando seu Windows 95 a bancarrota. Vai exigir mais do que sua poderosa máquina é capaz de outorgar. O telefone não para de tocar. Ela digita o texto em inglês no meio da planilha. Tenta corrigir e o Windows trava. Tenta reiniciar. Uma tela azul dizendo que o micro foi desligado incorretamente aparece. Um tal de Scandisk. Uma barra de execução para em 56 %. Setores ruins foram encontrados. Os olhos de Aline faíscam. Ela manda o software continuar. Ele pergunta se quer salvar as alterações num disquete. Cadê a caixa com disquetes? Sai da sala e vai até a secretaria do setor buscar disquetes. Não tem disquetes. Vai ao setor do outro corredor buscar disquetes. Quando volta o micro apagou. Acalme-se; diz a si mesma. Esbarrou no estabilizador. Religa o micro. Recomeça o suplício.

Enfim aparece a tela de início do Windows. E depois some.

Dois minutos de tensão.

Começa a entrar o Windows. Uma tela de logon solicitando senha aparece. Ela coloca a chave e a senha. Outro minuto de espera. O Windows diz que não tem nenhum servidor disponível pra efetuar o tal do logon.

Acalme-se Aline.

Ela tecla Enter

Aparece a tela de detecção automática de hardware. O Windows encontrou um novo componente. Como assim, novo componente? Ela tenta contornar o detetor, diz que não quer instalar nada. Aparece outra coisa detectada. E depois outra. Enfim começam a aparecer os ícones do sistema. Entra um aviso dizendo que a placa de vídeo está com problemas.

Acalme-se Aline.

O detector de vírus descobriu uma virose. Vírus de macro. No arquivo em que ela estava trabalhando. Quer limpar o arquivo? Ela responde que sim.

O antivírus apaga o arquivo.

Ela põe a testa sobre o mouse. Acaba clicando no ícone do correio. Infelizmente a rede não está entrando e o programa trava. A custa de muito CTRL-ALT-DEL ela destrava o Windows. Recomeça a digitar. Ferozmente. Aparece na porta o cara da CPD dizendo que vai ter um desligamento geral de dez minutos as três e quinze. Ela olha para o relógio. Duas e quarenta e cinco. O telefone toca novamente. Aparece uma tela azul dizendo que houve um erro de sistema. O coração congela. Ela dá um Enter sem esperança e o Windows volta. Acalme-se Aline. A menina da limpeza aparece e esbarra na mesa. Os papéis voam pelo chão. Acalme-se Aline. Dez minutos para o desligamento acontecer. Três dos textos estão adiantados, falta reformatar a tal planilha. A tecla "a" travou no meio do terceiro texto. Duas páginas e dois mil e quinhentos e vinte e dois "a"s depois ela consegue destravar. Quatro minutos para o desligamento. As luzes se apagam. Eles adiantaram o desligamento. O No-break resistiu bem. O micro ainda está ligado. Ela tem cinco minutos para salvar o que digitou antes de perder tudo. Quer dizer, teria se o indicador de energia do No-break indicasse plena carga e não 50%. Começa a tentar terminar e salvar os textos. O protetor de tela entra. Não, agora não, pensou. O No-break começa a piscar. Ela precisa de tempo! Pense Aline! Pense Aline. Decide desligar o monitor para economizar energia, fechar os programas e salvá-los às cegas. Quando está para digitar o último comando o No-break apaga por completo. Três segundos depois seria a vez do micro. Nessa hora a luz retorna. Ela reacende a tela e o último texto ainda está lá. Então suspira aliviada. Entra o gerente e avisa que devido a uma viagem pela manhã já não terá muita urgência dos memorandos. A tela azul de erro fatal do Windows aparece nesse momento. Ela fixa os olhos na tela azul e então olha para o gerente. Na sua mente só aparece a expressão:

Fatal error.

Fatal error.

Fatal error.

Fatal error

By WeLL

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Jagunçada.


Uma história de cão entre um homem e uma mulher.



Cantador de causos, o contador, de uma perna e de uma braço e de um olho e de uma orelha só, chegou de novo na cidade, e a multidão se acomodou. Era a última vez que contaria a história que por cinquenta anos contou, como jura feita a muito, a quem não se sabe, a quem não se viu.

Trazia sempre aos lombos, um alforge, e uma sacola com alguma coisa que só mostraria quando chegasse a hora.

A cidade em rebuliço esperaria o entardecer, porque no dia ditoso, quando contasse a Jagunçada, pela derradeira vez, o que levara consigo por quase cinquenta anos, finalmente, iria mostrar.

Como falava o cantador. As crianças em polvorosa, pois todos queriam ouvir, outra vez a jagunçada, outra feita, outro senão, a interminável história e sua canção.


E assim que entardeceu, começou, o contador a contar seu causo:


  • Cabra-ruim-de-más-bicho-muito-ruim-mermo. Era ele assim conhecido. Cabrunco odioso de mal. Jagunço afamado da região que compreende a pequena faixa entre Ponta-porã e Juazeiro do Norte. Cabra jurado de morte por Cabra-ruim era um homê marcado pra morrer. Qual como cabra defunto seria tido, aos olhos da populaça trêmula, que a muito adentrava as noite pra sepultar os matado, daquele cabra matador.


  • Longe de mim, criatura abestada, teu distino tá traçado, e num se aproxegue naum, que na várzea da artilharia pode sobrá tiro pra mim.


Assim excomungavam aos mortifundos, quando os coronéis avisavam que Cabra-ruim-de-más-bicho-muito-ruim-mermo estava pra chegar.


Fizeram-lhe, num dia nebuloso cujas sombras já se esvaem, emboscada ferina com os mais perversos matadores que o dinheiro podia comprar. Vinte e três homens, cada um com trinta quilo de balas, com mais facão na cinta que unha de jaburu nas mão, se atiraram incólumes pelas costas do caramunhão. Triste sina dos matuto que findaram entre as bala do marvado matador.

No mermo dia em que Cabra-ruim-de-más, chorou uma lágrima tormentosa pelo olho que ainda tinha, compungido o coração.

Pois nunca, em toda sua andança desgraçada como exímio matador, matara tão pouca gente de uma só feita.


  • Somente vinte e três...


Corpo que nem uma peneira, Cabra-ruim tava acostumado, mas lhe incomodava a média.

  • Homem macho que nem eu num mata menos de trinta. Como é que foi acontecer? Tô perdendo a postura, tô desvalorizado? Vinte e três! Só de raiva vou passar a cidadela no facão, pra essa gente miserável respeitar quem é o cão.


E assim seguia aquela praga, jagunço de renome, eta cabra ruim sim sinhô.


O afamado Coronel Desarraiga da Lima e Silva Teodoro, Capitão, azucrinado pelos feitos desta peste mortifúndia, arresolveu convocar o jagunço derradeiro, NA VERDADE, UMA MUIÉ. Amorosa da Caatinga linda. Mais conhecida como Diga-adeus-que-vais-morrer, de quem contava a lenda, seria o quinta cavaleira do apocalipse em fase de treinamento, convocada para tomar 'sastifação' com o recalcitrante marfegaçanho. Aquela muié sofrida, que perdera sete irmãos, pai, mãe e cabritos, nas fomes das secas incontáveis nas tormentas do sertão, se tornara numa lenda tamanha que fazia Maria-bonita parecê uma doce donzela sonhadora. Trocentos homens jaziam sem cabeça pelas estradas sertanejas, frutos da pontaria daquela órfã impressionante.


O dia inda tava claro quando a jagunça Diga-adeus entrou na cidade sofrida de Nazaré das Farinha. Uma romaria de matuto rumou para qualquer lugar, entre o ontem e o amanhã, porque sabe-se lá que iria acontecer quando os dois cabra da peste, arresolvessem se bulir.

Esticando o queixo duro, com voz de paca atarracada grunhiu Diga-Adeus:

  • Pra onde ocês vão, raça de matuto fugidor?

  • Nóis vamo pra duas légua depois que o cafundó-dos-Judas termina! Gritou a populaça.

E assim se ia a aterrorizada multidão.


Cabra-ruim se encontrou com Diga-adeus as duas da tarde em frente do cemitério. Cabra-ruim com uma pá nas mão, sorriu amostrando os dois dentes escurecidos que ainda tinha e gritou:


  • Vem cá minha nega, já preparei procê um lugar, bicha safada, pra tu num tê que se aperreá com aluguel. Nunca mais. Tá querendo tu segurá o toro brabo com as mão? Vô tê cortar aos poco, pra tu aprendê a respeitar os cabra-macho, muié despeitada!

  • Cumpadre Cabra-ruim, homem perverso de dá dó, aprumado na arte do exterminío, tá na hora, mormente chega pra qualquer um de nós, de intendê que as pessoa são que nem os indivíduo. Que bobagem é espirrar na farofa. E que boi lerdo bebe água suja.


Cabra-ruim-de-más-bicho-muito-ruim-mermo nem se coçou. Um tédio só. Eta cabra faladora, essa tal de Diga-Adeus.

  • Tá querendo me matá falando, muié?

Mãos crispadas de Diga-adeus sobre as empunhaduras dos facões de cortar cana:


  • Ao assustado a própria sombra assusta? Burro velho não toma freio? Cabra-ruim-de-más; cachorro comedor de ovelha, só matando. Diz então, cabrunco, como é que tu qué morrê.


Cabra-ruim responde.


  • Cavalo bom e muié valente, a gente só conhece na chegada.


Cabra-ruim cospe no chão. Se é que aquilo que saiu e sua boca podia ser chamado e cuspe. Levanta a aba da chapeleira de couro de toro castrado a unha por ele mesmo, dá uma rabanada de olho, aquele tipo de olhar enviezado que quando não aleija, mata, três fungadas e um buchicho e então fala:

  • Tanto acoar em sombra de corvo, pelo menos me diverte um pouco. Mas tu sabe que te dou valor. Por isso tu vais morrer aos pouco, coisas que não faço com todo mundo, só com os privilegiado. Agora vamo nóis cerra a noite, cabrita marcada pra morrer.


A tiranbança desenfreiada começou ali, os dois pulando mais que corisco em dia de temporal.


E assim foi.

No mais porreta de todos os enfrentamentos.


Incendiaram Nazaré das Farinha. Entraram por dentro de três plantação de cana, e num deixaram uma mardita em pé. Os gados desperado daquele confronto intenso, correram pro lugar errado e se atinaram em meio aos matadores. A boiada foi destroçada pela força dos peleantes. Era rebenque subindo, talagaço feito chuva e nada parava o gasqueaço daquele intenso entrevero.

E assim foi por quase três dias.

Cabra-ruim já tava todo cortado. A calça de couro de cabra de Diga-Adeus mostrava sua perna torneada, arranhada e suada, mas de todo modo a perna de uma muié.

Pela primeira vez em toda sua vida, Cabra-ruim vacilou. Diga-Adeus arfava quase sem se mantê de pé. A mão tremia enquanto seu olhar se fixava na fronte do caramunhão. E pela primeira vez em toda sua lida, Diga- Adeus se admirou de um homem.

Mas, partiram resolutos um pra dentro do outro, que aquilo num era hora de namorá.


Eta confronto arretado das terras queimadas, onde o sol inclemente decidiu jamais se afastar!

E assim foi. Por mais dois dias.

E quem sabe quando essa peleja intensa, arresolvia terminá?


Inté que chegaram as tropas di coroné Serapião, amigo de Rufoespino, parente

do afamado Coronel Desarraiga da Lima e Silva Teodoro Capitão. Trezentos jagunços treinados pelas mãos do Capitão.

Os cabra cercaram a cidade armados até a unha dos dedos dos pés.


Vixe Maria! Como falava o contador! Então cansado, o cantador de causos, o contador, de uma perna e de uma braço e de um olho e de uma orelha só, por ordem da promessa feita, dispois ocês hão de saber a quem, arresolveu terminá.


  • Pra encurtar essa lida, desta história renhida, como fiz, foi minha sina, agora livre vou-me embora, acabou-se, ai vou eu, pois na vertente dos dias, no cochicho da noite e quando fina a promessa, me vou.


Lentamente o contador abriu a bolsa, para o espanto da multidão, e delas cairam dois cranios, feitos pedaços, no chão.

Os cranios foram rolando batendo entre as pedras dos paralelepípedos caiados de branco, até pararem.

E um menino de sopetão, tomado de grande assombro, gritou e fêz a pergunta, do meio da confusão:

  • Porventura são esses os cranios de Cabra-ruim e da desgraçada Diga-Adeus? Os infame matador, naquele mês de horror, viraram enfim vatapá?

A multidão acompanhou em coro a pergunta:

  • Responde, cantador!


O contador entortou a boca, balançou a cabeça, deu um silvo e sua mão declinou.

Então quase que rindo, não se conteve e bradou:


  • Esses são os corenéis Serapião e Capitão, dos trezentos condenado, só eu sobrei, ninguém mais não... Cabra-ruim e Diga-Adeus fizeram o que nóis nunca iria esperar. Quando se viram cercados, decidiram por de lado as desavenças e entraram por dentro da Caatinga, os mardito. Nóis procuramos por três semanas. Nos embrenhando pela ata virgem, perdemos, inda naquela semana, mais de trinta cabruncos. Foi quando com armas tiradas Padre Cícero sabe da onde, Aquela muié bandida e aquele capanga de nome, arresolveram nos matá. Me deixaram viver pra que eu contasse a história, levando eles inté a fazenda de Serapião e Capitão.

A multidão ovacionava a história renhida, daquela luta marfadada, daquela jagunçada terrível.

E de novo o menino curioso sem se conter, sem segurá, questionou:

E que fim levou, os jagunços, desta história que finda?

O contador parou. Se virou. Olhou sério a multidão, agora silenciada. Os olhos atentos, o murmúrio do vento. Então falou:


  • Intão, mormente finda a lida, a sina... juntaram os trapo, as ferida e a dor,

e si uniram pelos sagrados votos do matrimônio...




E sem se virar de novo,

o cantador...

...disse adeus.














Autor:

Welington José Ferreira


publicado por wellcorp às 15:37 | link do post
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Jagunçada.


Uma história de cão entre um homem e uma mulher.



Cantador de causos, o contador, de uma perna e de uma braço e de um olho e de uma orelha só, chegou de novo na cidade, e a multidão se acomodou. Era a última vez que contaria a história que por cinquenta anos contou, como jura feita a muito, a quem não se sabe, a quem não se viu.

Trazia sempre aos lombos, um alforge, e uma sacola com alguma coisa que só mostraria quando chegasse a hora.

A cidade em rebuliço esperaria o entardecer, porque no dia ditoso, quando contasse a Jagunçada, pela derradeira vez, o que levara consigo por quase cinquenta anos, finalmente, iria mostrar.

Como falava o cantador. As crianças em polvorosa, pois todos queriam ouvir, outra vez a jagunçada, outra feita, outro senão, a interminável história e sua canção.


E assim que entardeceu, começou, o contador a contar seu causo:


  • Cabra-ruim-de-más-bicho-muito-ruim-mermo. Era ele assim conhecido. Cabrunco odioso de mal. Jagunço afamado da região que compreende a pequena faixa entre Ponta-porã e Juazeiro do Norte. Cabra jurado de morte por Cabra-ruim era um homê marcado pra morrer. Qual como cabra defunto seria tido, aos olhos da populaça trêmula, que a muito adentrava as noite pra sepultar os matado, daquele cabra matador.


  • Longe de mim, criatura abestada, teu distino tá traçado, e num se aproxegue naum, que na várzea da artilharia pode sobrá tiro pra mim.


Assim excomungavam aos mortifundos, quando os coronéis avisavam que Cabra-ruim-de-más-bicho-muito-ruim-mermo estava pra chegar.


Fizeram-lhe, num dia nebuloso cujas sombras já se esvaem, emboscada ferina com os mais perversos matadores que o dinheiro podia comprar. Vinte e três homens, cada um com trinta quilo de balas, com mais facão na cinta que unha de jaburu nas mão, se atiraram incólumes pelas costas do caramunhão. Triste sina dos matuto que findaram entre as bala do marvado matador.

No mermo dia em que Cabra-ruim-de-más, chorou uma lágrima tormentosa pelo olho que ainda tinha, compungido o coração.

Pois nunca, em toda sua andança desgraçada como exímio matador, matara tão pouca gente de uma só feita.


  • Somente vinte e três...


Corpo que nem uma peneira, Cabra-ruim tava acostumado, mas lhe incomodava a média.

  • Homem macho que nem eu num mata menos de trinta. Como é que foi acontecer? Tô perdendo a postura, tô desvalorizado? Vinte e três! Só de raiva vou passar a cidadela no facão, pra essa gente miserável respeitar quem é o cão.


E assim seguia aquela praga, jagunço de renome, eta cabra ruim sim sinhô.


O afamado Coronel Desarraiga da Lima e Silva Teodoro, Capitão, azucrinado pelos feitos desta peste mortifúndia, arresolveu convocar o jagunço derradeiro, NA VERDADE, UMA MUIÉ. Amorosa da Caatinga linda. Mais conhecida como Diga-adeus-que-vais-morrer, de quem contava a lenda, seria o quinta cavaleira do apocalipse em fase de treinamento, convocada para tomar 'sastifação' com o recalcitrante marfegaçanho. Aquela muié sofrida, que perdera sete irmãos, pai, mãe e cabritos, nas fomes das secas incontáveis nas tormentas do sertão, se tornara numa lenda tamanha que fazia Maria-bonita parecê uma doce donzela sonhadora. Trocentos homens jaziam sem cabeça pelas estradas sertanejas, frutos da pontaria daquela órfã impressionante.


O dia inda tava claro quando a jagunça Diga-adeus entrou na cidade sofrida de Nazaré das Farinha. Uma romaria de matuto rumou para qualquer lugar, entre o ontem e o amanhã, porque sabe-se lá que iria acontecer quando os dois cabra da peste, arresolvessem se bulir.

Esticando o queixo duro, com voz de paca atarracada grunhiu Diga-Adeus:

  • Pra onde ocês vão, raça de matuto fugidor?

  • Nóis vamo pra duas légua depois que o cafundó-dos-Judas termina! Gritou a populaça.

E assim se ia a aterrorizada multidão.


Cabra-ruim se encontrou com Diga-adeus as duas da tarde em frente do cemitério. Cabra-ruim com uma pá nas mão, sorriu amostrando os dois dentes escurecidos que ainda tinha e gritou:


  • Vem cá minha nega, já preparei procê um lugar, bicha safada, pra tu num tê que se aperreá com aluguel. Nunca mais. Tá querendo tu segurá o toro brabo com as mão? Vô tê cortar aos poco, pra tu aprendê a respeitar os cabra-macho, muié despeitada!

  • Cumpadre Cabra-ruim, homem perverso de dá dó, aprumado na arte do exterminío, tá na hora, mormente chega pra qualquer um de nós, de intendê que as pessoa são que nem os indivíduo. Que bobagem é espirrar na farofa. E que boi lerdo bebe água suja.


Cabra-ruim-de-más-bicho-muito-ruim-mermo nem se coçou. Um tédio só. Eta cabra faladora, essa tal de Diga-Adeus.

  • Tá querendo me matá falando, muié?

Mãos crispadas de Diga-adeus sobre as empunhaduras dos facões de cortar cana:


  • Ao assustado a própria sombra assusta? Burro velho não toma freio? Cabra-ruim-de-más; cachorro comedor de ovelha, só matando. Diz então, cabrunco, como é que tu qué morrê.


Cabra-ruim responde.


  • Cavalo bom e muié valente, a gente só conhece na chegada.


Cabra-ruim cospe no chão. Se é que aquilo que saiu e sua boca podia ser chamado e cuspe. Levanta a aba da chapeleira de couro de toro castrado a unha por ele mesmo, dá uma rabanada de olho, aquele tipo de olhar enviezado que quando não aleija, mata, três fungadas e um buchicho e então fala:

  • Tanto acoar em sombra de corvo, pelo menos me diverte um pouco. Mas tu sabe que te dou valor. Por isso tu vais morrer aos pouco, coisas que não faço com todo mundo, só com os privilegiado. Agora vamo nóis cerra a noite, cabrita marcada pra morrer.


A tiranbança desenfreiada começou ali, os dois pulando mais que corisco em dia de temporal.


E assim foi.

No mais porreta de todos os enfrentamentos.


Incendiaram Nazaré das Farinha. Entraram por dentro de três plantação de cana, e num deixaram uma mardita em pé. Os gados desperado daquele confronto intenso, correram pro lugar errado e se atinaram em meio aos matadores. A boiada foi destroçada pela força dos peleantes. Era rebenque subindo, talagaço feito chuva e nada parava o gasqueaço daquele intenso entrevero.

E assim foi por quase três dias.

Cabra-ruim já tava todo cortado. A calça de couro de cabra de Diga-Adeus mostrava sua perna torneada, arranhada e suada, mas de todo modo a perna de uma muié.

Pela primeira vez em toda sua vida, Cabra-ruim vacilou. Diga-Adeus arfava quase sem se mantê de pé. A mão tremia enquanto seu olhar se fixava na fronte do caramunhão. E pela primeira vez em toda sua lida, Diga- Adeus se admirou de um homem.

Mas, partiram resolutos um pra dentro do outro, que aquilo num era hora de namorá.


Eta confronto arretado das terras queimadas, onde o sol inclemente decidiu jamais se afastar!

E assim foi. Por mais dois dias.

E quem sabe quando essa peleja intensa, arresolvia terminá?


Inté que chegaram as tropas di coroné Serapião, amigo de Rufoespino, parente

do afamado Coronel Desarraiga da Lima e Silva Teodoro Capitão. Trezentos jagunços treinados pelas mãos do Capitão.

Os cabra cercaram a cidade armados até a unha dos dedos dos pés.


Vixe Maria! Como falava o contador! Então cansado, o cantador de causos, o contador, de uma perna e de uma braço e de um olho e de uma orelha só, por ordem da promessa feita, dispois ocês hão de saber a quem, arresolveu terminá.


  • Pra encurtar essa lida, desta história renhida, como fiz, foi minha sina, agora livre vou-me embora, acabou-se, ai vou eu, pois na vertente dos dias, no cochicho da noite e quando fina a promessa, me vou.


Lentamente o contador abriu a bolsa, para o espanto da multidão, e delas cairam dois cranios, feitos pedaços, no chão.

Os cranios foram rolando batendo entre as pedras dos paralelepípedos caiados de branco, até pararem.

E um menino de sopetão, tomado de grande assombro, gritou e fêz a pergunta, do meio da confusão:

  • Porventura são esses os cranios de Cabra-ruim e da desgraçada Diga-Adeus? Os infame matador, naquele mês de horror, viraram enfim vatapá?

A multidão acompanhou em coro a pergunta:

  • Responde, cantador!


O contador entortou a boca, balançou a cabeça, deu um silvo e sua mão declinou.

Então quase que rindo, não se conteve e bradou:


  • Esses são os corenéis Serapião e Capitão, dos trezentos condenado, só eu sobrei, ninguém mais não... Cabra-ruim e Diga-Adeus fizeram o que nóis nunca iria esperar. Quando se viram cercados, decidiram por de lado as desavenças e entraram por dentro da Caatinga, os mardito. Nóis procuramos por três semanas. Nos embrenhando pela ata virgem, perdemos, inda naquela semana, mais de trinta cabruncos. Foi quando com armas tiradas Padre Cícero sabe da onde, Aquela muié bandida e aquele capanga de nome, arresolveram nos matá. Me deixaram viver pra que eu contasse a história, levando eles inté a fazenda de Serapião e Capitão.

A multidão ovacionava a história renhida, daquela luta marfadada, daquela jagunçada terrível.

E de novo o menino curioso sem se conter, sem segurá, questionou:

E que fim levou, os jagunços, desta história que finda?

O contador parou. Se virou. Olhou sério a multidão, agora silenciada. Os olhos atentos, o murmúrio do vento. Então falou:


  • Intão, mormente finda a lida, a sina... juntaram os trapo, as ferida e a dor,

e si uniram pelos sagrados votos do matrimônio...




E sem se virar de novo,

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tudo precisa de fundamento:oque significa raiz ori...
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You pretty much said what i could not effectively ...
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