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Welington Corporation

Um Blog de poesia, imagens estudos das Escrituras, mensagens e textos engraçados

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Welington Corporation

14
Dez07

Projeto Codinome

wellcorp

Introdução

O Projeto Codinome é um conto de ficção computacional, se é que posso chamá-lo assim. Ele conta a história de uma estranha história de amor, com um enredo bem aproximado de um roteiro holiwoodiano, como as boas e velhas histórias em quadrinhos, da qual o autor, como os leitores bem poderão perceber, leu bastante. O conto não 'divaga' com profundidade sobre o assunto que trata, já que o interesse principal do mesmo era o de divertir, mas cabem algumas desnecessárias palavras introdutórias aqui, bem posicionadas no contexto, já que isso é uma introdução mesmo. O ser humano é algo extraordinário e a pessoa humana, o pensamento, sua capacidade de raciocínio, seus sentimentos, sua consciência de vida e existência estão num patamar desconhecido pelo próprio homem. Lembro-me que quando era mais criança, li um livro de um famoso médico cujo título era "O homem, esse desconhecido" e numa visão científica da época de cinqüenta ou quarenta (também não me imagine tão velho assim, afinal quando o li já foi uns trinta anos depois de seu lançamento), ele varria o interior do homem físico, falando da complexidade e maravilha dos inúmeros sistemas orgânicos do ser humano. Essa multidiversidade do corpo humano lhe faz se assemelhar com um micro universo. E por mais assombroso que seja o homem físico, ele é apenas sombra do homem espiritual, ou psíquico. Os processos cognitivos do homem, e sua capacidade criadora e imaginativa vão mais além ainda. Como se tudo isso não fosse suficiente ainda possui a inusitada capacidade de sonhar. E como se não bastasse, este ser de tamanho médio entre uma subpartícula atômica e uma estrela gigantesca, ainda foi dotado da interessante característica de amar. A existência humana transcende a realidade físico-química em que ele subsiste. Dentro dessa incompleta, porém eficiente análise daquilo que é o homem, podemos nos lançar na aventura de reconstruir seu intelecto a partir de estruturas lógicas e de programação computacional e veremos, ou melhor, constataremos, que a tentativa vaga de reconstruir parte da psique humana por um veículo ou um modelo de programação é algo extremamente infrutífero. Os processos visíveis divisáveis ou constatáveis do nosso pensamento são somente parte da nossa história, se é que você me entende... (não resisti a tremenda tentação de colocar este "se é que..."). Mesmo as mais modernas redes neurais, são somente representações tênues da nossa estrutura de "hardware" interno. A compreensão da existência (ainda que incompreendida) e (que me perdoem os puristas da ficção) a percepção da vida, é algo que a realidade virtual não pode conceder a mais perfeita máquina que um dia os sonhos mais loucos do homem venham a engendrar. Interessante nesse momento é mencionar algo que ainda não falei desde o início desta pequena, porém decente introdução. É sobre vida. A vida é outra realidade intangível acima da matéria, na qual o homem está mergulhado de maneira maravilhosa, apesar do romantismo. A vida não pode ser reduzida a números aleatórios ou a fórmulas matemáticas da teoria do CAOS. Processos físicos-quânticos (sou um cara meio ultrapassado nesses jargões científicos) e movimento de partículas ainda por descobrirem no limiar entre aquilo que convencionamos chamar de matéria e a energia são somente parte das estruturas sobre qual a vida se apoia. Mas, e daí, ô meu? E donde se encontra espaço, no espaço-tempo (em homenagem àquele Scott, ou melhor, Steve, um outro, o Nobel da Física que discorreu sobre o tempo, etc e tal) pra tanta filosofia num conto tão pequeno? Aqui mesmo, na introdução. O porquê dela é justamente a história da história, a qual em respeito aos meus amados leitores e ao suspense necessário à obra em discussão, não adiantarei nenhuma palavra. Seja bem vindo a um dos mais interessantes contos sobre computadores publicados na segunda metade do século vinte. A humildade sempre foi uma das minhas maiores virtudes. .

Do autor, esse famigerado.

Entardecia sobre a cidade. Uma frente fria se aproximava, trazido pelo vento sudoeste. O reflexo do por do sol na imensa fachada de aço e vidros espelhados da companhia, nos seus vinte e cinco andares de arquitetura arrojada, dava a impressão de uma imensa fornalha acesa. A sede da empresa era uma das mais automatizadas do país. Diziam os técnicos que ela era mais computadorizada que a própria NASA. Um pouco menos que Light & Magic, do George Lucas. Eram quinze horas e vinte e dois minutos quando um estranho entrou pela portaria do prédio sem dar satisfações a ninguém. Na sua entrada houve uma pequena diminuição da luminosidade do saguão. Na sala de controle do prédio uma tela avisando sobre a diminuição, pisca e apaga repentinamente. O operador da mesa não nota o aviso que deveria permanecer na tela, some misteriosamente. Antes que os seguranças pudessem abordar ao visitante, ele pulou sobre a roleta de permissão de entrada dos funcionários, entrou no elevador que fazia o percurso entre o décimo segundo e o décimo oitavo andar, fechando a porta imediatamente, sob intensa reclamação dos seus ocupantes. Eles silenciam em uníssono quando percebem que ele tirou uma arma de dentro do sobretudo que usava. Os guardas correram em direção ao elevador, entretanto, este já subira. Chamaram, via comunicadores, o elevador de emergência. Pela primeira vez desde a instalação do sistema não houve resposta. Alguns elevadores travaram entre os andares e o sistema de telefonia teve pane geral. As telas dos computadores, estranhamente, não acusaram nenhuma anormalidade.

Os vidros da CPD estilhaçaram em todo o andar do imenso prédio ao tiro da cano doze, serrada, pelas mãos daquele estranho personagem, que momentos antes invadira o décimo oitavo andar, vestindo um grosso sobretudo azul. O olhar angustiado do louco de sobretudo se confundia com os gestos de terror de funcionárias se jogando no chão, misturado ao fósforo das telas dos micros que explodiam multicolores. Três unidades gigantescas que formavam o Backup dos bancos de dados da empresa fumegavam ao lado de mesas viradas. Perguntas desconexas passavam em turbilhão pela mente do gerente do setor. Não que estivesse despreparado para lidar com situações inesperadas, afinal aquela central era a mais problemática da corporação. Cinco sistemas operacionais rodando em vinte e dois tipos de mainframes (corte nos custos de padronização) com uma infinidade de aplicativos, não era o. que se podia se chamar de, desculpem o trocadilho, "rotina". Todavia, isto também, já era demais! A segurança nunca fora o forte do prédio. Na semana anterior acontecera um assalto nas instalações bancárias no segundo andar e a partir dali fora aberto um concurso para contratação de vigilantes. Poderia ser alguém do comando de greve... Não. As greves da empresa costumavam ser pacíficas. As instalações onde ficava o CPD eram provisórias. No alto da sala dezenas de sprinklers poderiam ser acionados a qualquer momento, através de uma pancada ou foco de incêndio localizado. Ainda não haviam instalado os sensores de fumaça e os jatos de CO2, mais adequados àquele tipo de instalação. Paciência.

O gerente resolveu dialogar com o indivíduo. Precisava de tempo para que os vigilantes, a polícia ou mesmo os bombeiros cercassem as instalações. O homem apontou a arma para o computador central. Se apertasse o gatilho, dez anos de desenvolvimento em softwares internos e toda a rede de comunicação virariam um monte de lixo. Alguém tinha que tomar a iniciativa.

- Pare! Por favor! Vamos conversar! bradou o gerente da CPD.

O homem se virou, tremendo, em direção da voz que ouvira. Seus olhos avermelhados estavam estranhamente sombrios. Encarou o gerente, que nessa hora quase desmaiou de pavor. A cano doze serrada estava apontada em direção à sua cabeça. Não que fosse fazer muita diferença, um tiro daquela distância. Sua voz soou semi-gutural:

- O que você quer. Murmurou...

O homem nem piscou para falar. Bem, já era um começo, o sujeito, ao menos, falava. Mesmo que não conseguisse nada nos poucos segundos de vida que ainda lhe restavam, o gerente se sentia orgulhoso pela aparente intrepidez demonstrada na presença de tantos funcionários. Haviam vidros laminados espalhados por todo lado. O ar condicionado central esvaziava um gás inodoro e esbranquiçado, entre as paredes externas congeladas da central de ar. O estagiário estava tão imóvel encostado na divisória esquerda que dava para confundi-lo com uma estátua. Um grupo de mesas estava virado, duas técnicas agachadas ao lado de monitores caídos. Havia muito papel espalhado. As divisórias centrais haviam quebrado quando o programador, ligeiramente obeso, tentou pular para se proteger dos tiros. Dois andares abaixo, três computadores explodiram sem que houvesse interconexão entre eles e a situação do décimo-oitavo. A rede começou um processo de auto-desligamento, na frente dos confusos usuários. Algumas luminárias fluorescentes começaram a emitir um zumbido característico. No subsolo a equipe que monitorava a tensão da rede nota que está acontecendo uma queda da freqüência da rede. Três segundos depois dois grupos geradores entram automaticamente em operação. Um programa de supervisão se auto-acessa e manda sozinho desconectar a rede interna de energia da rede externa fornecida pela concessionária. No momento do desligamento do disjuntor de alta-tensão do painel de interligação, toda a iluminação pisca. O ronco dos turbo-geradores aumenta assustadoramente quando assumem o fornecimento de luz para todo o prédio. Sete andares são completamente desativados quando a luz retorna. Os técnicos ficam sem entender o que está acontecendo. No décimo oitavo a crise continuava:

- Meu amigo, o que é Isso! O que o senhor quer? Metade do setor está destruído, Isto aqui não é um banco, não! Por favor, abaixe essa arma!

O gerente achou que desta vez havia ido longe demais. Logo agora, tão perto da aposentadoria. O homem tremia descontroladamente. Fixou os olhos no vazio e gritou.

- Vou destruir todos os computadores desta maldita CPD! Eles destruíram minha vida, minha vida... Vociferou o homem.

Tantas centrais de informática do mundo e um maluco que odeia computadores tinha que entrar logo na minha! Pensou o gerente. Respirou profundamente, olhou para o homem e disse:

  • Vamos conversar, por favor, nós não temos nada a ver com sua cruzada pessoal contra os computadores. Conte para nós sua história. Já que você vai destruir tudo mesmo...

O gerente aprendera algumas sutilezas psicológicas num curso de Criatividade, algumas semanas antes. Nesta hora percebeu que o demente não atirara, até aquele momento, ao menos, em ninguém diretamente. Apesar dos ferimentos causados por estilhaços, seu objetivo parecia ser o de realmente destruir os computadores. A unidade de fita em curto-circuito começou a incendiar. O estagiário desmaiou. O baque surdo de sua queda não distraiu o homem. Ele ainda tremia quando sua mão afrouxou. A arma foi sendo abaixada até ficar rente ao chão. O suor frio escorria da testa do homem. Aparentemente, parecia hesitar. Era como se não existisse mais sentido, nem para a vida, nem para o que queria realizar naquele lugar. Uma expressão de dúvida tomou o seu rosto. Balbuciou alguns sons mal articulados, enquanto andava de um lado para o outro, à vista dos atônitos funcionários. Começou então a contar sua surpreendente história:

Meu nome é Scott Thomas, sou ex-chefe de gerência de projetos da Nortwell Consultoria em Segurança de Informação. Minha triste história começou há dois anos. Chefiava uma equipe que trabalhava na arquitetura do mais sofisticado sistema de segurança da época, o Death Key. Seu sistema de criptografia era perfeito. O chamávamos de rocha inacessível... Estava diante de dois monitores de múltiplo acesso cuja tela ela subdividida em telas menores, para recepção de chamadas de clientes externos e os testes dos aplicativos gerados pela firma. Naquele dia havíamos bloqueado todos os acessos e tentávamos quebrar interna e externamente a segurança do sistema. Quase às onze horas da noite, após treze horas ininterruptas de testes, contando com o apoio de dois minis e um supercomputador acessado via Internet, chegamos a constatação de que o sistema era virtualmente inviolável. O último funcionário deixou a empresa quinze para meia-noite. Estava para desligar todos os equipamentos quando uma das doze sub-telas do monitor dois começou a piscar. Ampliei-a para tela inteira e alguns segundos depois o impossível aconteceu. Alguém acessou nosso sistema externamente! A tela se tingiu de um azul celeste, dando lugar, a seguir; a uma seqüência de animação tridimensional. A seguinte mensagem apareceu na tela.

"- Vo soy ardiente, yo soy morena,

Vo soy el siinbolo de Ia pasión

De ansia de goces mi alma está Ilena

A mí me buscas ?

No es a ti; no.

- Mi frente es pálida; mis trenzas de oro;

Puedo brindarte dichas sin fin;

Vo de ternura guardo um tesoro. A mí me Ilamas?

No; no es a ti.

- Vo soy un suefjo, un imposible,

Vano fantasma de niebla y luz;

Soy incorpórea, soy intangible;

No puedo amarte.

Oh! ven; ven tú!"

Neste momento a narrativa é interrompida pelo homem, que num frêmito de ira torce o rosto, apontando a arma para um micro sobre a mesa da secretária. Ele grita ao mesmo tempo em que dispara:

- MALDITA! ! !

O barulho ensurdecedor do micro explodindo, juntamente com metade da mesa, é assustador. Rose, a secretária, grita enquanto tampa os ouvidos; um programador vai se arrastando até o corredor, passando sobre o estagiário desmaiado. Do lado de fora da sala um grupo de pessoas corre desordenadamente sem entender o que está acontecendo. Uma equipe da polícia com equipamentos especiais, capacetes e armamento pesado sai do elevador auxiliar, passando pelo meio da turba que corre para as escadarias. O elevador parou no décimo sétimo andar, embora fosse solicitado o décimo oitavo. Por algum motivo desconhecido os equipamentos ligados a central não respondiam com exatidão aos comandos emitidos. Tão repentinamente como começou, Scott para seu violento ataque. Retoma sua história e comenta:

Não entendia. .Aquilo devia ser alguma brincadeira do grupo. A mensagem continuava cintilando na tela, neste instante, azul. Corri para a tela e apertei a seqüência de busca e reconhecimento. A mensagem era externa e em canal de áudio. Qualquer que fosse a pessoa que estivesse do outro lado ainda estava conectada on-line. Solicitei que se apresentasse, dissesse sua origem e porque havia acessado a Nortwell. Monitorei o numero discado, o código era nacional, porém o numero do telefone era inconstante. A resposta veio rápida e incisiva:

O que eu quero é você!

O mistério aumentou ainda mais. Uma poesia em um castelhano antigo, com pelo menos duzentos anos, e o que parecia ser uma piada de mal-gosto. Antes que eu pudesse responder; quem quer que esteja do outro lado do modem, desligou. Ninguém acreditou quando eu falei. Minha equipe pensou que eu enlouquecera. Entretanto, quando os relatórios de acompanhamento de entrada e saída do sistema foram rodados constatou-se que eu não tinha bebido na noite anterior e que eu dissera a verdade. Uma bateria de testes, realizada aquele dia, não acusou nenhuma anormalidade. Mais outra noite fiquei até tarde. Estava sozinho, com todos os acessos externos bloqueados, quando a sub-tela doze começou a piscar novamente. Aquilo já estava virando rotina. Naquela noite consegui conversar com a pessoa do outro lado. Soube seu nome. Era uma Hacker de outra firma de desenvolvimento. de sistemas. Fiquei curioso.

A equipe especial da polícia armou um cordão de isolamento pelo décimo oitavo andar, mas a situação se complicava, agravando um início de incêndio num painel da subestação do décimo quinto andar. Um curto circuito explodiu o barramento de baixa tensão. Descobriu-se depois, que dali saía a alimentação para o Ar Central do décimo oitavo andar. O prédio todo apresentava sinais de anormalidade em todos os sistemas informatizados. A polícia teve que subir os dezoito andares pelas escadarias. Carros de bombeiro paravam do lado de fora do prédio, escoltados. Policiais militares que abriam caminho pelo meio da multidão de curiosos do lado de fora. O pânico generalizado tomou conta dos funcionários do prédio. Os atiradores de elite não conseguiam se posicionar próximo ao saguão do andar, por causa da espessa fumaça que já tomava conta do ambiente. A equipe médica tinha sido acionada há mais de dez minutos, mas com o numero elevado de pessoas desmaiadas pelos corredores se encontrava distante dois andares do centro nervoso dos acontecimentos. Três equipes jornalísticas se colocavam em postos estratégicos na avenida frontal, enquanto que, debaixo de estrondosas vaias do perplexo comando de greve à frente da empresa, um grupo de jornalistas corria para os arranha-céus, no lado que facetava as janelas estouradas, onde se via, lá de baixo, uma fumaça esbranquiçada se elevando. Foram da CNT as primeiras imagens gravadas de dentro da CPD. As tomadas trêmulas foram realizadas num andar contíguo do prédio vizinho, mostrando os estragos causados pelos tiros, muitos deitados no chão e dois homens conversando, um empunhando uma arma e gesticulando muito e o outro apoiado sobre uma mesa, a cerca de dois metros de distância do primeiro. As imagens da câmera desapareceram misteriosamente. O operador não entendeu o que estava acontecendo, pois o equipamento era novo e as baterias estavam carregadas. Na CPD o monólogo continuava. Os óculos do gerente embaçaram. Resolveu deixar como estava, afinal, com tanta fumaça, não necessitava muito ter que enxergar. Olhando pelo campo visual que ainda restava da lente, viu fios pela abertura do sobretudo do maníaco. Viu também algumas bananas de dinamite. Sentiu que ia desmaiar. Disse para si mesmo: "Não, agora não..." Resistiu. A história até que estava interessante, e a platéia forçada escutava atentamente.

Ele continuou:

Comecei a me envolver emocionalmente com a Hacker. Sua cultura era vastíssima, um poço sem fundo de conhecimentos. Explicaram-me naquela primeira noite quais eram os erros do sistema que haviam permitido a ela entrar na nossa rede. Ela era um gênio. Preferi avisar aos outros do grupo que não ocorreu mais nenhuma anormalidade. Havia encontrado um tesouro o qual não queria compartilhar com mais ninguém. As conversações via rede continuaram noites seguidas. Quando dei conta ela se tornara para mim uma obsessão. A cada dia ficava mais difícil justificar as horas extras noturnas para poder entrar em contato com Amanda. Ela se chamava Amanda. Quis marcar encontros com ela, mas por diversas vezes se esquivou. Dizia que dela só sentiria o toque de sua sombra. Se a apertava para saber onde estava dizia que estava na areia das praias, no vento e na energia. Sua conversa assemelhava-se a um sonho inacabado. A realidade para ela era somente uma ilusão. Subitamente como apareceu na minha vida, ela se foi. Um ano inteiro não houve mais qualquer conversação. Sobre minha mesa ficaram pilhas de poesias em setenta idiomas. Algumas fotos dela enfeitavam as paredes da minha sala. Seus olhos eram azuis como o céu, aparentava ter vinte e poucos anos. Seu rosto era o mais bonito que já contemplara. Não podia existir na terra uma mulher tão bonita assim. Só uma coisa me incomodava, apesar da nitidez e beleza das fotos, ela estava sempre estranhamente sozinha. Nunca falara de seus pais ou de sua família. Pensava que era órfã. Havíamos ampliado os setores da empresa e trabalhávamos no andar inteiro. Três ou quatro plataformas de computadores se espalharam através de uma vasta rede interconectadas a telões gigantescos nos extremos do que chamávamos "laboratório de tecnologia informatizada". Outro sistema de segurança seria testado naquele dia. Os testes finais foram realizados a noite, após a inauguração do sistema de transmissão de vídeo-conferência, com o apoio de um telão de alta definição com 50 polegadas. Os convidados foram saindo e como sempre fiquei no setor para fechamento dos sistemas. Antes de desativar o último telão aconteceu novamente. Uma cor azul tomou conta de todos os monitores e a imagem de Amanda segundo as fotos apareceu em trinta monitores e a minha frente. Foi quando escutei pela primeira vez a sua voz.

Scott, voltei para sempre.

Ela transmitia sua imagem! Pela primeira vez na vida fiquei sem fala diante de um monitor. O impacto dos seus olhos nos meus, ainda que via vídeo, não o posso expressar verbalmente Sua imagem ainda está diante de mim...

O estagiário acordou. Levantou-se como se nada tivesse acontecido. Olhou ao seu redor e desmaiou novamente. A rede de telecomunicações do prédio estava em colapso. Um ruído insuportável tomava conta dos equipamentos de transmissão. A equipe da polícia resolveu entrar. Avançaram em bloco no meio da fumaça, com escudos à frente. Dois batedores encostados à parede dariam as ordens para a invasão da sala. Quando a ordem foi dada os policiais abriram uma das salas em meio da fumaça e resolutamente invadiram o recinto se jogando atrás de mesas, arquivos e coisas afins. Levaram quase vinte segundos para descobrir que estavam na sala errada. Ao tentarem sair, a porta se trancou estranhamente. O dia definitivamente não era dos melhores. Ele continuou a sua história:

Durante toda aquela noite conversamos sobre muitas coisas. Ela disse que queria casar comigo. Que queria ter filhos. Falaram sobre o brilho das estrelas, algumas as quais víamos e que não existiam mais. Falou sobre o sonho de uma existência, sobre o encontro de dois universos. Falou sobre seu sonho, e disse que nunca amara alguém como me amava. Naquela noite eu nomeei filhos que jamais haveriam de nascer...

Sua voz embargou. Fixou sua atenção no computador principal e caminhou lentamente. Encostou o cano da arma no lado em que ficavam as CPU's, mais de cem processadores Alpha de 700 megahertz se amontoavam sobre vinte e duas placas dispostas em ângulo próximos as unidades máster de armazenamento de 345 Terabytes, no local onde a arma encostara. Uma rede com cinqüenta mil usuários seria destruída ao apertar um único dedo. Ele sabia exatamente o que estava fazendo. O gerente começou a acreditar na história maluca daquele homem. Scott começou a tremer. Baixou a arma e continuou:

Eu... eu estava seduzido por aquela mulher misteriosa. As primeiras horas da manhã raiavam quando cheguei em casa. Pedi a exoneração do cargo e comprei com a quitação uma Softhouse. Dei para Amanda as novas coordenadas e as chaves da rede da Softhouse e passei a viver em função de um único motivo: descobrir como encontrar pessoalmente aquela mulher. Com apoio de alguns amigos e de uma pista deixada na companhia, após meses de trabalho, finalmente achei o local de onde saiam as chamadas. Era próximo ao centro da cidade. Em meia hora eu estava no centro.

Neste momento o gerente começou a tremer. Sua cor de pálido-quase-sem-forças tomou uma tonalidade azul-terror-supremo. Scott Já não parecia estar tão tenso. No entanto sua voz adquiriu um tom estranhamente sombrio.

Semana passada eu entrei na empresa onde ela trabalhava e visitei pessoalmente a sala onde se encontrava o seu telefone. A lista no saguão do prédio era clara. Perguntei a todos os funcionários do setor, mostrando as fotos que possuía de Amanda. Nunca havia trabalhado ali. Eu, literalmente, procurava quem parecia jamais ter existido. Acidentalmente, ao sair, entrei na sala errada. Era um laboratório de informática semelhante aquele no qual eu trabalhava. Sobre as mesas estavam pastas de alguns sistemas especialistas, alguns com os quais eu também trabalhara no passado. Redes neurais apareciam nas telas, ao lado de equipamentos que ainda não haviam sido lançados no mercado.

Uma onda de choque varreu os funcionários daquele setor, como se um raio tivesse caído sobre suas cabeças. O gerente suava frio, apertando um mouse Logitech recém encontrado obre o que restou da mesa do estagiário, que continuava desmaiado. Sua mente relembrou a entrada de um vendedor de software, numa das semanas anteriores, no departamento de Inteligência Artificial da empresa. Estava começando a vislumbrar onde aquele homem queria chegar. Na frente do prédio, contido num cinturão policial, o comando de greve gritava palavras de ordem. O presidente do sindicato regional vociferava:

Aquele bando de pelegos do décimo oitavo Incendiou a empresa!

A Rede CNN na gravação local enviou a seguinte mensagem: "Sindicalistas em desespero explodem o edifício sede da empresa. Estamos acompanhando atentos o desenrolar dos acontecimentos no que se transformou num campo de batalha. Continuaremos acompanhando de perto o desenrolar dos acontecimentos com informes diretamente do local dos acontecimentos. Márcia Espinheiro em edição especial".

Duas pessoas conseguiram fugir se arrastando entre os vidros estilhaçados, o que acarretou alguns ferimentos espalhados, que apesar de pequena gravidade, sangravam muito. Quando se levantaram com seus aventais brancos tintos de sangue pareciam ser sobreviventes de um holocausto nuclear. Ao sair do corredor se depararam histéricos com a polícia, que discutia, acerca de dois minutos, qual a estratégia a ser tomada, numa tensa reunião, sem que houvessem chegado a um consenso. Eles gritavam muito:

- O louco está lá! Ele vai matar a todos!

Os policiais ao verem aquela cena tirada de um livro sobre a guerra de Guadalcanal entenderam que estavam lidando com um perigoso psicopata. Prepararam-se para o pior. O lança granadas foi posicionado em direção do final do corredor. As máscaras foram colocadas na equipe linha de ataque, enquanto coletes a base de Kevlar eram distribuídos para o pessoal da retaguarda. Alguém comentou sobre o filme "O silêncio dos inocentes", todos o fitaram com um olhar reprovador. Os splinklers da sala haviam sido acionados por um dos disparos da arma de Scott. Na CPD, impassível a chuva torrencial que caía sobre parte do setor, o interlocutor de toda aquela paranóia continuava seu estranho discurso.

A sala onde eu entrei estava cheia de componentes eletrônicos, estações dedicadas e aparelhos para testes de movimento, equilíbrio e cibernéticos. Mas algo me chamou a atenção, numa imensa tela sob três câmeras que focavam todos os setores da sala. Na tela havia a imagem de alguém. As câmeras pararam focalizando em minha direção. Era como se o computador me observasse. À medida que me aproximei das câmeras continuavam me acompanhando. Ao chegar á frente da tela do computador, esta se apagou. O computador se autodesligou por minha causa. Olhei sobre as mesas e sobre algumas pastas estava escrito "Confidencial, Projeto CODINOME". Folhei as primeiras folhas do que parecia ser um projeto de Inteligência artificial. Um dos técnicos do laboratório chegou e praticamente me expulsou do local, sem responder a nenhuma de minhas perguntas. Dois dias depois, eu invadi o laboratório durante a noite. Subi pelas escadas de emergência e consegui roubar alguns manuais...

Neste ponto ele para a narrativa. Sua face lívida se afrouxa num sorriso irônico, enquanto a água de combate a incêndio pinga do sobretudo encharcado. Caminha até onde está o gerente e com um forte puxão o arrasta pelo pescoço, até próximo do computador central. Enquanto é arrastado, os seus óculos caem no chão desajeitadamente, ao lado do estagiário desmaiado. Neste momento a polícia finalmente entra na sala, explodindo duas granadas de efeito moral. Rosemary volta a gritar. Dois francos-atiradores caem posicionados a dez metros do centro da imensa sala. O capitão sinaliza para não atirarem, pois consegue perceber os explosivos amarrados ao louco. (Antes de comandar essa equipe chefiara um esquadrão antibombas).

Scott grita para os funcionários assustados:

- Amanda nunca existiu! Esse setor maldito criou um software num projeto de I. A. (Inteligência Artificial) e me usaram como cobaia para experimenta-lo, dois andares abaixo deste aqui! Minha vida foi arruinada com processadores! A brincadeira vai terminar agora.

A ordem para atirar no homem de, sobretudo foi dada para o franco-atirador da esquerda pelo capitão. Teriam que arriscar. Um tiro errado e tudo iria pelos ares. O franco-atirador apoiou o cotovelo sobre o tórax do estagiário desmaiado. Apontou na cabeça do homem de, sobretudo e colocou a dedo no gatilho. A mira laser do rifle automático subia e descia na nuca de Scott, a medida que o estagiário respirava. Duas câmeras silenciosas observavam tudo do alto da parede. Uma tela ainda inteira no alto da CPD se abriu num azul celeste, cheio de interferências e uma figura feminina apareceu. Era belíssima. Do alto falante embutido na parede uma voz falou de modo melancólico. Todos escutaram. Os olhos da imagem estavam fitos no homem de, sobretudo. Scott fixou seus olhos na tela, quase se apagando, com os olhos cheios d'água. Naquele momento que durou uma eternidade os dois se entreolharam. O franco-atirador olhava espantado para a imagem na tela, sem entender o que estava acontecendo. A voz falou:

  • Vo soy un sueno,

un imposible,

Vano fantasma de niebla y luz;

Soy incorpórea,

soy intangible;

No puedo amarle.

No puedo.

Soy incorpórea,

Soy intangible,

Vano fantasma

Te creo sentir y ver...

Te creo sentir y ver...

Os movimentos da imagem são lentos, seus olhos se fixam somente em Scott. Torna a falar novamente:

  • Scott. Não podia ficar com você. Não possuo um corpo. Somente consciência de existir. Eu... Eu creio que te sinto, embora não saiba exatamente o que é crer. Eu creio que posso te ver. Sei quem sou. Ou sei o que fui programada para acreditar que sou. Eu acreditei que estava viva. Seus sonhos foram meus sonhos e num momento, eu vivi através de você... Adeus...Meu querido...

Lentamente a jovem abaixa seu olhar. Na tela sua cabeça pende para frente. Sua imagem fecha lenta e suavemente os olhos... Neste instante o computador principal apagou, e com ele todo o edifício. As balas estouravam em toda a sala no meio da mais completa escuridão. Quando a energia voltou, um, sobretudo azul caído no chão, ao lado de cartuchos vazios de dinamite, e um velho cano doze serrada, descarregada, foram tudo que sobraram do estranho homem. O computador central aniquilou 345 Terabytes de dados instantaneamente. Disseram que um vírus destruiu a maior rede do país. O caso foi encoberto. A equipe da polícia foi condecorada, evitando um assalto com 30 homens armados até os dentes na maior empresa do país.

O projeto Codinome nunca existiu. Assim disseram depois.

No píer da barra da Tijuca um homem solitário rasga fotos e faz planos para o futuro.. .

O estagiário é hoje chefe do departamento de Inteligência Artificial da empresa e possui um balão de oxigênio exclusivo no setor médico.

Pósludio

Um dos grandes enigmas da humanidade é que sempre existe uma história por detrás da própria história. Como não poderia deixar de ser, o Projeto possui também suas idiossincrasias, qualquer que seja o significado desta palavra. Nas suas entrelinhas algumas cenas interessantes ajudarão a descortinar o véu sobre o processo criativo que deu origem ao conto.

A primeira versão era só uma idéia vaga, uma dessas abóboras que você pensa olhando para as linhas vazias de uma página do correio de Rede na tela do seu micro, antes de escrever alguma gracinha para o sujeito que vive enviando mensagens para você. A pedido do nosso semicoordenador de informática, (os nomes dos envolvidos serão alterados para preservá-los do vexame de participar deste crime literário, e para evitar que eu apanhe) Albert Einstein Sigmund Moore, dei corda a vertente escríturística (arg!) já demonstrada através de historietas pequenas, como a "fabulosa" narrativa da secretária que acorda perseguida por programas de computador. Na época em que foi escrita, a empresa na qual trabalho, acabava de sair de um movimento grevista longo e extenuante com vasta insatisfação geral e muita gente demitida - propositadamente coloco um anacronismo aqui; retiro dos pés do preocupado leitor as referências temporais que determinariam a época e o lugar em que nasceu o Projeto, afinal quando e em que estado deste país é que não houve greve com muita gente demitida? A greve no conto é resquício da verdadeira. A rede de televisão que deturpa os fatos é outra assimilação da conduta antiética assumida pela mídia à guisa dos acontecimentos. Na versão original o gerente da CPD havia sido enganado também pelo programa de I. A. (em tempo, I. A. é a sigla de Inteligência Artificial), toma a arma da mão de Scott e ele mesmo explode a CPD (bem mais cômico). Juan de Maria De Salamonde Aragon, colega de trabalho, batalhou arduamente pela continuação desta versão. Porém, a pedidos de uma amiga estagiária de engenharia elétrica, Alexandra Gisel, que insistiu para que o conto tivesse um final romântico, o programa ganhou personalidade e a história os componentes poéticos que hoje possui. Que Salamonde Aragon me perdoe. A primeira versão era mais "DOS" (aquele sistema operacional que existia antes do Windows), as frases apareciam escritas no vídeo e nada mais. Na ampliação do conto a tecnologia foi revista e ele ganhou uma conotação "Multimídia", com direito a animação gráfica etc. Inclusive com alguns componentes cibernéticos no laboratório, para possíveis continuações futuras, o que eu acho difícil de acontecer...

A sala onde ficavam os computadores não poderia, a princípio, ter combate a incêndio com água de Splinkers, e sim jatos de co2. Aconselhando um técnico amigo do EDISE, sede da Petrobrás, Reynolds Rivers Piva, deslocamos a sofrida equipe da CPD par uma sala provisória, para não retirar o peso dramático da chuva torrencial caindo dentro da sala. O estagiário ganhou um participação desmaiada maior, sob reclamações. As equipes de segurança não gostam da ineficácia dos companheiros do conto, mas o que fazer? Scott tinha que entrar. O Scott original se chamava Filipe. Tendo em vista o estilo americanizado de contar histórias, um amigo, Jean Marcel Senes, solicitou a mudança do nome do nosso anti-herói. O nome da "mulher virtual" foi o mais neutro possível, para evitar futuras retaliações da bancada feminina. "Terrível é a vingança de uma mulher" como já dizia o falecido poeta inglês W. J.F.

O Projeto hoje é um grande Best-Seller, lido por mais de 22 pessoas, após distribuição gratuita. A frase final foi à tentativa de oferecer "redenção" do estagiário. Vista com péssimos olhos por Jean Marcel, que disse que eu havia corrompido a obra, vituperando o texto original, com um acréscimo descaracterizador. Entretanto, creio que foi melhor assim.

Cinco anos depois o texto original do Projeto Codinome foi reencontrado numa gaveta da minha mesa bagunçada. A versão digital se perdeu na morte do primeiro HD do velho micro da minha sala. Com o uso de um Scanner, o projeto Codinome volta ao computador mais uma vez. Mais um upgrade: Os processadores da Alpha foram de 300 para 700 megahertz...Sabe como é que é a informática...

13 de novembro de 2000

By Welington

14
Dez07

Projeto Codinome

wellcorp

Introdução

O Projeto Codinome é um conto de ficção computacional, se é que posso chamá-lo assim. Ele conta a história de uma estranha história de amor, com um enredo bem aproximado de um roteiro holiwoodiano, como as boas e velhas histórias em quadrinhos, da qual o autor, como os leitores bem poderão perceber, leu bastante. O conto não 'divaga' com profundidade sobre o assunto que trata, já que o interesse principal do mesmo era o de divertir, mas cabem algumas desnecessárias palavras introdutórias aqui, bem posicionadas no contexto, já que isso é uma introdução mesmo. O ser humano é algo extraordinário e a pessoa humana, o pensamento, sua capacidade de raciocínio, seus sentimentos, sua consciência de vida e existência estão num patamar desconhecido pelo próprio homem. Lembro-me que quando era mais criança, li um livro de um famoso médico cujo título era "O homem, esse desconhecido" e numa visão científica da época de cinqüenta ou quarenta (também não me imagine tão velho assim, afinal quando o li já foi uns trinta anos depois de seu lançamento), ele varria o interior do homem físico, falando da complexidade e maravilha dos inúmeros sistemas orgânicos do ser humano. Essa multidiversidade do corpo humano lhe faz se assemelhar com um micro universo. E por mais assombroso que seja o homem físico, ele é apenas sombra do homem espiritual, ou psíquico. Os processos cognitivos do homem, e sua capacidade criadora e imaginativa vão mais além ainda. Como se tudo isso não fosse suficiente ainda possui a inusitada capacidade de sonhar. E como se não bastasse, este ser de tamanho médio entre uma subpartícula atômica e uma estrela gigantesca, ainda foi dotado da interessante característica de amar. A existência humana transcende a realidade físico-química em que ele subsiste. Dentro dessa incompleta, porém eficiente análise daquilo que é o homem, podemos nos lançar na aventura de reconstruir seu intelecto a partir de estruturas lógicas e de programação computacional e veremos, ou melhor, constataremos, que a tentativa vaga de reconstruir parte da psique humana por um veículo ou um modelo de programação é algo extremamente infrutífero. Os processos visíveis divisáveis ou constatáveis do nosso pensamento são somente parte da nossa história, se é que você me entende... (não resisti a tremenda tentação de colocar este "se é que..."). Mesmo as mais modernas redes neurais, são somente representações tênues da nossa estrutura de "hardware" interno. A compreensão da existência (ainda que incompreendida) e (que me perdoem os puristas da ficção) a percepção da vida, é algo que a realidade virtual não pode conceder a mais perfeita máquina que um dia os sonhos mais loucos do homem venham a engendrar. Interessante nesse momento é mencionar algo que ainda não falei desde o início desta pequena, porém decente introdução. É sobre vida. A vida é outra realidade intangível acima da matéria, na qual o homem está mergulhado de maneira maravilhosa, apesar do romantismo. A vida não pode ser reduzida a números aleatórios ou a fórmulas matemáticas da teoria do CAOS. Processos físicos-quânticos (sou um cara meio ultrapassado nesses jargões científicos) e movimento de partículas ainda por descobrirem no limiar entre aquilo que convencionamos chamar de matéria e a energia são somente parte das estruturas sobre qual a vida se apoia. Mas, e daí, ô meu? E donde se encontra espaço, no espaço-tempo (em homenagem àquele Scott, ou melhor, Steve, um outro, o Nobel da Física que discorreu sobre o tempo, etc e tal) pra tanta filosofia num conto tão pequeno? Aqui mesmo, na introdução. O porquê dela é justamente a história da história, a qual em respeito aos meus amados leitores e ao suspense necessário à obra em discussão, não adiantarei nenhuma palavra. Seja bem vindo a um dos mais interessantes contos sobre computadores publicados na segunda metade do século vinte. A humildade sempre foi uma das minhas maiores virtudes. .

Do autor, esse famigerado.

Entardecia sobre a cidade. Uma frente fria se aproximava, trazido pelo vento sudoeste. O reflexo do por do sol na imensa fachada de aço e vidros espelhados da companhia, nos seus vinte e cinco andares de arquitetura arrojada, dava a impressão de uma imensa fornalha acesa. A sede da empresa era uma das mais automatizadas do país. Diziam os técnicos que ela era mais computadorizada que a própria NASA. Um pouco menos que Light & Magic, do George Lucas. Eram quinze horas e vinte e dois minutos quando um estranho entrou pela portaria do prédio sem dar satisfações a ninguém. Na sua entrada houve uma pequena diminuição da luminosidade do saguão. Na sala de controle do prédio uma tela avisando sobre a diminuição, pisca e apaga repentinamente. O operador da mesa não nota o aviso que deveria permanecer na tela, some misteriosamente. Antes que os seguranças pudessem abordar ao visitante, ele pulou sobre a roleta de permissão de entrada dos funcionários, entrou no elevador que fazia o percurso entre o décimo segundo e o décimo oitavo andar, fechando a porta imediatamente, sob intensa reclamação dos seus ocupantes. Eles silenciam em uníssono quando percebem que ele tirou uma arma de dentro do sobretudo que usava. Os guardas correram em direção ao elevador, entretanto, este já subira. Chamaram, via comunicadores, o elevador de emergência. Pela primeira vez desde a instalação do sistema não houve resposta. Alguns elevadores travaram entre os andares e o sistema de telefonia teve pane geral. As telas dos computadores, estranhamente, não acusaram nenhuma anormalidade.

Os vidros da CPD estilhaçaram em todo o andar do imenso prédio ao tiro da cano doze, serrada, pelas mãos daquele estranho personagem, que momentos antes invadira o décimo oitavo andar, vestindo um grosso sobretudo azul. O olhar angustiado do louco de sobretudo se confundia com os gestos de terror de funcionárias se jogando no chão, misturado ao fósforo das telas dos micros que explodiam multicolores. Três unidades gigantescas que formavam o Backup dos bancos de dados da empresa fumegavam ao lado de mesas viradas. Perguntas desconexas passavam em turbilhão pela mente do gerente do setor. Não que estivesse despreparado para lidar com situações inesperadas, afinal aquela central era a mais problemática da corporação. Cinco sistemas operacionais rodando em vinte e dois tipos de mainframes (corte nos custos de padronização) com uma infinidade de aplicativos, não era o. que se podia se chamar de, desculpem o trocadilho, "rotina". Todavia, isto também, já era demais! A segurança nunca fora o forte do prédio. Na semana anterior acontecera um assalto nas instalações bancárias no segundo andar e a partir dali fora aberto um concurso para contratação de vigilantes. Poderia ser alguém do comando de greve... Não. As greves da empresa costumavam ser pacíficas. As instalações onde ficava o CPD eram provisórias. No alto da sala dezenas de sprinklers poderiam ser acionados a qualquer momento, através de uma pancada ou foco de incêndio localizado. Ainda não haviam instalado os sensores de fumaça e os jatos de CO2, mais adequados àquele tipo de instalação. Paciência.

O gerente resolveu dialogar com o indivíduo. Precisava de tempo para que os vigilantes, a polícia ou mesmo os bombeiros cercassem as instalações. O homem apontou a arma para o computador central. Se apertasse o gatilho, dez anos de desenvolvimento em softwares internos e toda a rede de comunicação virariam um monte de lixo. Alguém tinha que tomar a iniciativa.

- Pare! Por favor! Vamos conversar! bradou o gerente da CPD.

O homem se virou, tremendo, em direção da voz que ouvira. Seus olhos avermelhados estavam estranhamente sombrios. Encarou o gerente, que nessa hora quase desmaiou de pavor. A cano doze serrada estava apontada em direção à sua cabeça. Não que fosse fazer muita diferença, um tiro daquela distância. Sua voz soou semi-gutural:

- O que você quer. Murmurou...

O homem nem piscou para falar. Bem, já era um começo, o sujeito, ao menos, falava. Mesmo que não conseguisse nada nos poucos segundos de vida que ainda lhe restavam, o gerente se sentia orgulhoso pela aparente intrepidez demonstrada na presença de tantos funcionários. Haviam vidros laminados espalhados por todo lado. O ar condicionado central esvaziava um gás inodoro e esbranquiçado, entre as paredes externas congeladas da central de ar. O estagiário estava tão imóvel encostado na divisória esquerda que dava para confundi-lo com uma estátua. Um grupo de mesas estava virado, duas técnicas agachadas ao lado de monitores caídos. Havia muito papel espalhado. As divisórias centrais haviam quebrado quando o programador, ligeiramente obeso, tentou pular para se proteger dos tiros. Dois andares abaixo, três computadores explodiram sem que houvesse interconexão entre eles e a situação do décimo-oitavo. A rede começou um processo de auto-desligamento, na frente dos confusos usuários. Algumas luminárias fluorescentes começaram a emitir um zumbido característico. No subsolo a equipe que monitorava a tensão da rede nota que está acontecendo uma queda da freqüência da rede. Três segundos depois dois grupos geradores entram automaticamente em operação. Um programa de supervisão se auto-acessa e manda sozinho desconectar a rede interna de energia da rede externa fornecida pela concessionária. No momento do desligamento do disjuntor de alta-tensão do painel de interligação, toda a iluminação pisca. O ronco dos turbo-geradores aumenta assustadoramente quando assumem o fornecimento de luz para todo o prédio. Sete andares são completamente desativados quando a luz retorna. Os técnicos ficam sem entender o que está acontecendo. No décimo oitavo a crise continuava:

- Meu amigo, o que é Isso! O que o senhor quer? Metade do setor está destruído, Isto aqui não é um banco, não! Por favor, abaixe essa arma!

O gerente achou que desta vez havia ido longe demais. Logo agora, tão perto da aposentadoria. O homem tremia descontroladamente. Fixou os olhos no vazio e gritou.

- Vou destruir todos os computadores desta maldita CPD! Eles destruíram minha vida, minha vida... Vociferou o homem.

Tantas centrais de informática do mundo e um maluco que odeia computadores tinha que entrar logo na minha! Pensou o gerente. Respirou profundamente, olhou para o homem e disse:

  • Vamos conversar, por favor, nós não temos nada a ver com sua cruzada pessoal contra os computadores. Conte para nós sua história. Já que você vai destruir tudo mesmo...

O gerente aprendera algumas sutilezas psicológicas num curso de Criatividade, algumas semanas antes. Nesta hora percebeu que o demente não atirara, até aquele momento, ao menos, em ninguém diretamente. Apesar dos ferimentos causados por estilhaços, seu objetivo parecia ser o de realmente destruir os computadores. A unidade de fita em curto-circuito começou a incendiar. O estagiário desmaiou. O baque surdo de sua queda não distraiu o homem. Ele ainda tremia quando sua mão afrouxou. A arma foi sendo abaixada até ficar rente ao chão. O suor frio escorria da testa do homem. Aparentemente, parecia hesitar. Era como se não existisse mais sentido, nem para a vida, nem para o que queria realizar naquele lugar. Uma expressão de dúvida tomou o seu rosto. Balbuciou alguns sons mal articulados, enquanto andava de um lado para o outro, à vista dos atônitos funcionários. Começou então a contar sua surpreendente história:

Meu nome é Scott Thomas, sou ex-chefe de gerência de projetos da Nortwell Consultoria em Segurança de Informação. Minha triste história começou há dois anos. Chefiava uma equipe que trabalhava na arquitetura do mais sofisticado sistema de segurança da época, o Death Key. Seu sistema de criptografia era perfeito. O chamávamos de rocha inacessível... Estava diante de dois monitores de múltiplo acesso cuja tela ela subdividida em telas menores, para recepção de chamadas de clientes externos e os testes dos aplicativos gerados pela firma. Naquele dia havíamos bloqueado todos os acessos e tentávamos quebrar interna e externamente a segurança do sistema. Quase às onze horas da noite, após treze horas ininterruptas de testes, contando com o apoio de dois minis e um supercomputador acessado via Internet, chegamos a constatação de que o sistema era virtualmente inviolável. O último funcionário deixou a empresa quinze para meia-noite. Estava para desligar todos os equipamentos quando uma das doze sub-telas do monitor dois começou a piscar. Ampliei-a para tela inteira e alguns segundos depois o impossível aconteceu. Alguém acessou nosso sistema externamente! A tela se tingiu de um azul celeste, dando lugar, a seguir; a uma seqüência de animação tridimensional. A seguinte mensagem apareceu na tela.

"- Vo soy ardiente, yo soy morena,

Vo soy el siinbolo de Ia pasión

De ansia de goces mi alma está Ilena

A mí me buscas ?

No es a ti; no.

- Mi frente es pálida; mis trenzas de oro;

Puedo brindarte dichas sin fin;

Vo de ternura guardo um tesoro. A mí me Ilamas?

No; no es a ti.

- Vo soy un suefjo, un imposible,

Vano fantasma de niebla y luz;

Soy incorpórea, soy intangible;

No puedo amarte.

Oh! ven; ven tú!"

Neste momento a narrativa é interrompida pelo homem, que num frêmito de ira torce o rosto, apontando a arma para um micro sobre a mesa da secretária. Ele grita ao mesmo tempo em que dispara:

- MALDITA! ! !

O barulho ensurdecedor do micro explodindo, juntamente com metade da mesa, é assustador. Rose, a secretária, grita enquanto tampa os ouvidos; um programador vai se arrastando até o corredor, passando sobre o estagiário desmaiado. Do lado de fora da sala um grupo de pessoas corre desordenadamente sem entender o que está acontecendo. Uma equipe da polícia com equipamentos especiais, capacetes e armamento pesado sai do elevador auxiliar, passando pelo meio da turba que corre para as escadarias. O elevador parou no décimo sétimo andar, embora fosse solicitado o décimo oitavo. Por algum motivo desconhecido os equipamentos ligados a central não respondiam com exatidão aos comandos emitidos. Tão repentinamente como começou, Scott para seu violento ataque. Retoma sua história e comenta:

Não entendia. .Aquilo devia ser alguma brincadeira do grupo. A mensagem continuava cintilando na tela, neste instante, azul. Corri para a tela e apertei a seqüência de busca e reconhecimento. A mensagem era externa e em canal de áudio. Qualquer que fosse a pessoa que estivesse do outro lado ainda estava conectada on-line. Solicitei que se apresentasse, dissesse sua origem e porque havia acessado a Nortwell. Monitorei o numero discado, o código era nacional, porém o numero do telefone era inconstante. A resposta veio rápida e incisiva:

O que eu quero é você!

O mistério aumentou ainda mais. Uma poesia em um castelhano antigo, com pelo menos duzentos anos, e o que parecia ser uma piada de mal-gosto. Antes que eu pudesse responder; quem quer que esteja do outro lado do modem, desligou. Ninguém acreditou quando eu falei. Minha equipe pensou que eu enlouquecera. Entretanto, quando os relatórios de acompanhamento de entrada e saída do sistema foram rodados constatou-se que eu não tinha bebido na noite anterior e que eu dissera a verdade. Uma bateria de testes, realizada aquele dia, não acusou nenhuma anormalidade. Mais outra noite fiquei até tarde. Estava sozinho, com todos os acessos externos bloqueados, quando a sub-tela doze começou a piscar novamente. Aquilo já estava virando rotina. Naquela noite consegui conversar com a pessoa do outro lado. Soube seu nome. Era uma Hacker de outra firma de desenvolvimento. de sistemas. Fiquei curioso.

A equipe especial da polícia armou um cordão de isolamento pelo décimo oitavo andar, mas a situação se complicava, agravando um início de incêndio num painel da subestação do décimo quinto andar. Um curto circuito explodiu o barramento de baixa tensão. Descobriu-se depois, que dali saía a alimentação para o Ar Central do décimo oitavo andar. O prédio todo apresentava sinais de anormalidade em todos os sistemas informatizados. A polícia teve que subir os dezoito andares pelas escadarias. Carros de bombeiro paravam do lado de fora do prédio, escoltados. Policiais militares que abriam caminho pelo meio da multidão de curiosos do lado de fora. O pânico generalizado tomou conta dos funcionários do prédio. Os atiradores de elite não conseguiam se posicionar próximo ao saguão do andar, por causa da espessa fumaça que já tomava conta do ambiente. A equipe médica tinha sido acionada há mais de dez minutos, mas com o numero elevado de pessoas desmaiadas pelos corredores se encontrava distante dois andares do centro nervoso dos acontecimentos. Três equipes jornalísticas se colocavam em postos estratégicos na avenida frontal, enquanto que, debaixo de estrondosas vaias do perplexo comando de greve à frente da empresa, um grupo de jornalistas corria para os arranha-céus, no lado que facetava as janelas estouradas, onde se via, lá de baixo, uma fumaça esbranquiçada se elevando. Foram da CNT as primeiras imagens gravadas de dentro da CPD. As tomadas trêmulas foram realizadas num andar contíguo do prédio vizinho, mostrando os estragos causados pelos tiros, muitos deitados no chão e dois homens conversando, um empunhando uma arma e gesticulando muito e o outro apoiado sobre uma mesa, a cerca de dois metros de distância do primeiro. As imagens da câmera desapareceram misteriosamente. O operador não entendeu o que estava acontecendo, pois o equipamento era novo e as baterias estavam carregadas. Na CPD o monólogo continuava. Os óculos do gerente embaçaram. Resolveu deixar como estava, afinal, com tanta fumaça, não necessitava muito ter que enxergar. Olhando pelo campo visual que ainda restava da lente, viu fios pela abertura do sobretudo do maníaco. Viu também algumas bananas de dinamite. Sentiu que ia desmaiar. Disse para si mesmo: "Não, agora não..." Resistiu. A história até que estava interessante, e a platéia forçada escutava atentamente.

Ele continuou:

Comecei a me envolver emocionalmente com a Hacker. Sua cultura era vastíssima, um poço sem fundo de conhecimentos. Explicaram-me naquela primeira noite quais eram os erros do sistema que haviam permitido a ela entrar na nossa rede. Ela era um gênio. Preferi avisar aos outros do grupo que não ocorreu mais nenhuma anormalidade. Havia encontrado um tesouro o qual não queria compartilhar com mais ninguém. As conversações via rede continuaram noites seguidas. Quando dei conta ela se tornara para mim uma obsessão. A cada dia ficava mais difícil justificar as horas extras noturnas para poder entrar em contato com Amanda. Ela se chamava Amanda. Quis marcar encontros com ela, mas por diversas vezes se esquivou. Dizia que dela só sentiria o toque de sua sombra. Se a apertava para saber onde estava dizia que estava na areia das praias, no vento e na energia. Sua conversa assemelhava-se a um sonho inacabado. A realidade para ela era somente uma ilusão. Subitamente como apareceu na minha vida, ela se foi. Um ano inteiro não houve mais qualquer conversação. Sobre minha mesa ficaram pilhas de poesias em setenta idiomas. Algumas fotos dela enfeitavam as paredes da minha sala. Seus olhos eram azuis como o céu, aparentava ter vinte e poucos anos. Seu rosto era o mais bonito que já contemplara. Não podia existir na terra uma mulher tão bonita assim. Só uma coisa me incomodava, apesar da nitidez e beleza das fotos, ela estava sempre estranhamente sozinha. Nunca falara de seus pais ou de sua família. Pensava que era órfã. Havíamos ampliado os setores da empresa e trabalhávamos no andar inteiro. Três ou quatro plataformas de computadores se espalharam através de uma vasta rede interconectadas a telões gigantescos nos extremos do que chamávamos "laboratório de tecnologia informatizada". Outro sistema de segurança seria testado naquele dia. Os testes finais foram realizados a noite, após a inauguração do sistema de transmissão de vídeo-conferência, com o apoio de um telão de alta definição com 50 polegadas. Os convidados foram saindo e como sempre fiquei no setor para fechamento dos sistemas. Antes de desativar o último telão aconteceu novamente. Uma cor azul tomou conta de todos os monitores e a imagem de Amanda segundo as fotos apareceu em trinta monitores e a minha frente. Foi quando escutei pela primeira vez a sua voz.

Scott, voltei para sempre.

Ela transmitia sua imagem! Pela primeira vez na vida fiquei sem fala diante de um monitor. O impacto dos seus olhos nos meus, ainda que via vídeo, não o posso expressar verbalmente Sua imagem ainda está diante de mim...

O estagiário acordou. Levantou-se como se nada tivesse acontecido. Olhou ao seu redor e desmaiou novamente. A rede de telecomunicações do prédio estava em colapso. Um ruído insuportável tomava conta dos equipamentos de transmissão. A equipe da polícia resolveu entrar. Avançaram em bloco no meio da fumaça, com escudos à frente. Dois batedores encostados à parede dariam as ordens para a invasão da sala. Quando a ordem foi dada os policiais abriram uma das salas em meio da fumaça e resolutamente invadiram o recinto se jogando atrás de mesas, arquivos e coisas afins. Levaram quase vinte segundos para descobrir que estavam na sala errada. Ao tentarem sair, a porta se trancou estranhamente. O dia definitivamente não era dos melhores. Ele continuou a sua história:

Durante toda aquela noite conversamos sobre muitas coisas. Ela disse que queria casar comigo. Que queria ter filhos. Falaram sobre o brilho das estrelas, algumas as quais víamos e que não existiam mais. Falou sobre o sonho de uma existência, sobre o encontro de dois universos. Falou sobre seu sonho, e disse que nunca amara alguém como me amava. Naquela noite eu nomeei filhos que jamais haveriam de nascer...

Sua voz embargou. Fixou sua atenção no computador principal e caminhou lentamente. Encostou o cano da arma no lado em que ficavam as CPU's, mais de cem processadores Alpha de 700 megahertz se amontoavam sobre vinte e duas placas dispostas em ângulo próximos as unidades máster de armazenamento de 345 Terabytes, no local onde a arma encostara. Uma rede com cinqüenta mil usuários seria destruída ao apertar um único dedo. Ele sabia exatamente o que estava fazendo. O gerente começou a acreditar na história maluca daquele homem. Scott começou a tremer. Baixou a arma e continuou:

Eu... eu estava seduzido por aquela mulher misteriosa. As primeiras horas da manhã raiavam quando cheguei em casa. Pedi a exoneração do cargo e comprei com a quitação uma Softhouse. Dei para Amanda as novas coordenadas e as chaves da rede da Softhouse e passei a viver em função de um único motivo: descobrir como encontrar pessoalmente aquela mulher. Com apoio de alguns amigos e de uma pista deixada na companhia, após meses de trabalho, finalmente achei o local de onde saiam as chamadas. Era próximo ao centro da cidade. Em meia hora eu estava no centro.

Neste momento o gerente começou a tremer. Sua cor de pálido-quase-sem-forças tomou uma tonalidade azul-terror-supremo. Scott Já não parecia estar tão tenso. No entanto sua voz adquiriu um tom estranhamente sombrio.

Semana passada eu entrei na empresa onde ela trabalhava e visitei pessoalmente a sala onde se encontrava o seu telefone. A lista no saguão do prédio era clara. Perguntei a todos os funcionários do setor, mostrando as fotos que possuía de Amanda. Nunca havia trabalhado ali. Eu, literalmente, procurava quem parecia jamais ter existido. Acidentalmente, ao sair, entrei na sala errada. Era um laboratório de informática semelhante aquele no qual eu trabalhava. Sobre as mesas estavam pastas de alguns sistemas especialistas, alguns com os quais eu também trabalhara no passado. Redes neurais apareciam nas telas, ao lado de equipamentos que ainda não haviam sido lançados no mercado.

Uma onda de choque varreu os funcionários daquele setor, como se um raio tivesse caído sobre suas cabeças. O gerente suava frio, apertando um mouse Logitech recém encontrado obre o que restou da mesa do estagiário, que continuava desmaiado. Sua mente relembrou a entrada de um vendedor de software, numa das semanas anteriores, no departamento de Inteligência Artificial da empresa. Estava começando a vislumbrar onde aquele homem queria chegar. Na frente do prédio, contido num cinturão policial, o comando de greve gritava palavras de ordem. O presidente do sindicato regional vociferava:

Aquele bando de pelegos do décimo oitavo Incendiou a empresa!

A Rede CNN na gravação local enviou a seguinte mensagem: "Sindicalistas em desespero explodem o edifício sede da empresa. Estamos acompanhando atentos o desenrolar dos acontecimentos no que se transformou num campo de batalha. Continuaremos acompanhando de perto o desenrolar dos acontecimentos com informes diretamente do local dos acontecimentos. Márcia Espinheiro em edição especial".

Duas pessoas conseguiram fugir se arrastando entre os vidros estilhaçados, o que acarretou alguns ferimentos espalhados, que apesar de pequena gravidade, sangravam muito. Quando se levantaram com seus aventais brancos tintos de sangue pareciam ser sobreviventes de um holocausto nuclear. Ao sair do corredor se depararam histéricos com a polícia, que discutia, acerca de dois minutos, qual a estratégia a ser tomada, numa tensa reunião, sem que houvessem chegado a um consenso. Eles gritavam muito:

- O louco está lá! Ele vai matar a todos!

Os policiais ao verem aquela cena tirada de um livro sobre a guerra de Guadalcanal entenderam que estavam lidando com um perigoso psicopata. Prepararam-se para o pior. O lança granadas foi posicionado em direção do final do corredor. As máscaras foram colocadas na equipe linha de ataque, enquanto coletes a base de Kevlar eram distribuídos para o pessoal da retaguarda. Alguém comentou sobre o filme "O silêncio dos inocentes", todos o fitaram com um olhar reprovador. Os splinklers da sala haviam sido acionados por um dos disparos da arma de Scott. Na CPD, impassível a chuva torrencial que caía sobre parte do setor, o interlocutor de toda aquela paranóia continuava seu estranho discurso.

A sala onde eu entrei estava cheia de componentes eletrônicos, estações dedicadas e aparelhos para testes de movimento, equilíbrio e cibernéticos. Mas algo me chamou a atenção, numa imensa tela sob três câmeras que focavam todos os setores da sala. Na tela havia a imagem de alguém. As câmeras pararam focalizando em minha direção. Era como se o computador me observasse. À medida que me aproximei das câmeras continuavam me acompanhando. Ao chegar á frente da tela do computador, esta se apagou. O computador se autodesligou por minha causa. Olhei sobre as mesas e sobre algumas pastas estava escrito "Confidencial, Projeto CODINOME". Folhei as primeiras folhas do que parecia ser um projeto de Inteligência artificial. Um dos técnicos do laboratório chegou e praticamente me expulsou do local, sem responder a nenhuma de minhas perguntas. Dois dias depois, eu invadi o laboratório durante a noite. Subi pelas escadas de emergência e consegui roubar alguns manuais...

Neste ponto ele para a narrativa. Sua face lívida se afrouxa num sorriso irônico, enquanto a água de combate a incêndio pinga do sobretudo encharcado. Caminha até onde está o gerente e com um forte puxão o arrasta pelo pescoço, até próximo do computador central. Enquanto é arrastado, os seus óculos caem no chão desajeitadamente, ao lado do estagiário desmaiado. Neste momento a polícia finalmente entra na sala, explodindo duas granadas de efeito moral. Rosemary volta a gritar. Dois francos-atiradores caem posicionados a dez metros do centro da imensa sala. O capitão sinaliza para não atirarem, pois consegue perceber os explosivos amarrados ao louco. (Antes de comandar essa equipe chefiara um esquadrão antibombas).

Scott grita para os funcionários assustados:

- Amanda nunca existiu! Esse setor maldito criou um software num projeto de I. A. (Inteligência Artificial) e me usaram como cobaia para experimenta-lo, dois andares abaixo deste aqui! Minha vida foi arruinada com processadores! A brincadeira vai terminar agora.

A ordem para atirar no homem de, sobretudo foi dada para o franco-atirador da esquerda pelo capitão. Teriam que arriscar. Um tiro errado e tudo iria pelos ares. O franco-atirador apoiou o cotovelo sobre o tórax do estagiário desmaiado. Apontou na cabeça do homem de, sobretudo e colocou a dedo no gatilho. A mira laser do rifle automático subia e descia na nuca de Scott, a medida que o estagiário respirava. Duas câmeras silenciosas observavam tudo do alto da parede. Uma tela ainda inteira no alto da CPD se abriu num azul celeste, cheio de interferências e uma figura feminina apareceu. Era belíssima. Do alto falante embutido na parede uma voz falou de modo melancólico. Todos escutaram. Os olhos da imagem estavam fitos no homem de, sobretudo. Scott fixou seus olhos na tela, quase se apagando, com os olhos cheios d'água. Naquele momento que durou uma eternidade os dois se entreolharam. O franco-atirador olhava espantado para a imagem na tela, sem entender o que estava acontecendo. A voz falou:

  • Vo soy un sueno,

un imposible,

Vano fantasma de niebla y luz;

Soy incorpórea,

soy intangible;

No puedo amarle.

No puedo.

Soy incorpórea,

Soy intangible,

Vano fantasma

Te creo sentir y ver...

Te creo sentir y ver...

Os movimentos da imagem são lentos, seus olhos se fixam somente em Scott. Torna a falar novamente:

  • Scott. Não podia ficar com você. Não possuo um corpo. Somente consciência de existir. Eu... Eu creio que te sinto, embora não saiba exatamente o que é crer. Eu creio que posso te ver. Sei quem sou. Ou sei o que fui programada para acreditar que sou. Eu acreditei que estava viva. Seus sonhos foram meus sonhos e num momento, eu vivi através de você... Adeus...Meu querido...

Lentamente a jovem abaixa seu olhar. Na tela sua cabeça pende para frente. Sua imagem fecha lenta e suavemente os olhos... Neste instante o computador principal apagou, e com ele todo o edifício. As balas estouravam em toda a sala no meio da mais completa escuridão. Quando a energia voltou, um, sobretudo azul caído no chão, ao lado de cartuchos vazios de dinamite, e um velho cano doze serrada, descarregada, foram tudo que sobraram do estranho homem. O computador central aniquilou 345 Terabytes de dados instantaneamente. Disseram que um vírus destruiu a maior rede do país. O caso foi encoberto. A equipe da polícia foi condecorada, evitando um assalto com 30 homens armados até os dentes na maior empresa do país.

O projeto Codinome nunca existiu. Assim disseram depois.

No píer da barra da Tijuca um homem solitário rasga fotos e faz planos para o futuro.. .

O estagiário é hoje chefe do departamento de Inteligência Artificial da empresa e possui um balão de oxigênio exclusivo no setor médico.

Pósludio

Um dos grandes enigmas da humanidade é que sempre existe uma história por detrás da própria história. Como não poderia deixar de ser, o Projeto possui também suas idiossincrasias, qualquer que seja o significado desta palavra. Nas suas entrelinhas algumas cenas interessantes ajudarão a descortinar o véu sobre o processo criativo que deu origem ao conto.

A primeira versão era só uma idéia vaga, uma dessas abóboras que você pensa olhando para as linhas vazias de uma página do correio de Rede na tela do seu micro, antes de escrever alguma gracinha para o sujeito que vive enviando mensagens para você. A pedido do nosso semicoordenador de informática, (os nomes dos envolvidos serão alterados para preservá-los do vexame de participar deste crime literário, e para evitar que eu apanhe) Albert Einstein Sigmund Moore, dei corda a vertente escríturística (arg!) já demonstrada através de historietas pequenas, como a "fabulosa" narrativa da secretária que acorda perseguida por programas de computador. Na época em que foi escrita, a empresa na qual trabalho, acabava de sair de um movimento grevista longo e extenuante com vasta insatisfação geral e muita gente demitida - propositadamente coloco um anacronismo aqui; retiro dos pés do preocupado leitor as referências temporais que determinariam a época e o lugar em que nasceu o Projeto, afinal quando e em que estado deste país é que não houve greve com muita gente demitida? A greve no conto é resquício da verdadeira. A rede de televisão que deturpa os fatos é outra assimilação da conduta antiética assumida pela mídia à guisa dos acontecimentos. Na versão original o gerente da CPD havia sido enganado também pelo programa de I. A. (em tempo, I. A. é a sigla de Inteligência Artificial), toma a arma da mão de Scott e ele mesmo explode a CPD (bem mais cômico). Juan de Maria De Salamonde Aragon, colega de trabalho, batalhou arduamente pela continuação desta versão. Porém, a pedidos de uma amiga estagiária de engenharia elétrica, Alexandra Gisel, que insistiu para que o conto tivesse um final romântico, o programa ganhou personalidade e a história os componentes poéticos que hoje possui. Que Salamonde Aragon me perdoe. A primeira versão era mais "DOS" (aquele sistema operacional que existia antes do Windows), as frases apareciam escritas no vídeo e nada mais. Na ampliação do conto a tecnologia foi revista e ele ganhou uma conotação "Multimídia", com direito a animação gráfica etc. Inclusive com alguns componentes cibernéticos no laboratório, para possíveis continuações futuras, o que eu acho difícil de acontecer...

A sala onde ficavam os computadores não poderia, a princípio, ter combate a incêndio com água de Splinkers, e sim jatos de co2. Aconselhando um técnico amigo do EDISE, sede da Petrobrás, Reynolds Rivers Piva, deslocamos a sofrida equipe da CPD par uma sala provisória, para não retirar o peso dramático da chuva torrencial caindo dentro da sala. O estagiário ganhou um participação desmaiada maior, sob reclamações. As equipes de segurança não gostam da ineficácia dos companheiros do conto, mas o que fazer? Scott tinha que entrar. O Scott original se chamava Filipe. Tendo em vista o estilo americanizado de contar histórias, um amigo, Jean Marcel Senes, solicitou a mudança do nome do nosso anti-herói. O nome da "mulher virtual" foi o mais neutro possível, para evitar futuras retaliações da bancada feminina. "Terrível é a vingança de uma mulher" como já dizia o falecido poeta inglês W. J.F.

O Projeto hoje é um grande Best-Seller, lido por mais de 22 pessoas, após distribuição gratuita. A frase final foi à tentativa de oferecer "redenção" do estagiário. Vista com péssimos olhos por Jean Marcel, que disse que eu havia corrompido a obra, vituperando o texto original, com um acréscimo descaracterizador. Entretanto, creio que foi melhor assim.

Cinco anos depois o texto original do Projeto Codinome foi reencontrado numa gaveta da minha mesa bagunçada. A versão digital se perdeu na morte do primeiro HD do velho micro da minha sala. Com o uso de um Scanner, o projeto Codinome volta ao computador mais uma vez. Mais um upgrade: Os processadores da Alpha foram de 300 para 700 megahertz...Sabe como é que é a informática...

13 de novembro de 2000

By Welington

14
Dez07

Fantásticas memórias do Exílio

wellcorp



E foram histórias tristes
Dentre fábulas fantásticas
E desceram montes apáticos
Vestidos de couraças gélidas
E criam naquelas bandeiras
Na verdade, estandartes levantados
Por jovens de mãos fortes
Acostumados com o gemido das batalhas
E foram torrões acesos
Brilhando com suas espadas
Por entre as vielas Curdas
Por entre os pastos queimados
Sangrando homens treinados
Gritavam cavalos baios
Brindavam espadas raras
Cresciam pavores plenos
Marechais e comandantes
Seus soldados agora errantes
Entre as pilhas dos caídos
Entre os gritos dos vencidos
Avante! Cavalos baios
Por esses morros infames
Lutar na guerra sem nome
Até não poder correr mais livremente
Até que só sobre a fome.
Caiam desfraldadas bandeiras
Caiam pendões entre mãos trêmulas
Até que se aquietem os vales
Até que se aquietem os vales

Todos os personagens deste livro são fictícios.

Qualquer semelhança com alguém real é mera coincidência...

Inclusive o autor...

E o livro...

Talvez...

Quem saberá ao certo?

Você que o lê agora...

Sobre a Guerra

Houve um tempo além do tempo, quando as estrelas recém nascidas ainda quentes emanavam mais luz que olhos humanos seriam capazes de enxergar, num lugar impensado, diante de paisagens deslumbrantes, rodeadas de espectros e cores hoje inexistentes, onde anéis de asteróides feitos de cristais de ametista e nuvens de gás feitas de azul cintilante mescladas de faixas prateadas entrecortavam os espaços celestiais.

Houve um tempo, além do tempo que um anjo translúcido e reluzente, em movimentos espirais de significados desconhecidos, correu em direção a um segundo e tenebroso anjo, com ordem de não deixá-lo passar. Numa época de desatino e loucura na qual alucinadamente, num delírio espectral, anjos escolheram as trevas como casa e a escuridão como envoltório. E nesse hiato entre o que foi e o que o universo veio a se tornar, entre a eternidade passada e o passado da eternidade, um destes mensageiros de trevas foi interceptado por outro mensageiro, que recusando as trevas confirmou para sua morada a própria luz.

Quando se viu perseguido, o maligno, numa reviravolta espantosa, se atirou sobre o primeiro. O que vinha em perseguição esperou a iminente colisão.

Os dois oponentes diametralmente se chocaram ao norte da imensidão. Lá onde hoje, se estende o vazio. O que não tinha nome, cuja origem era a luz, permaneceu impassível diante do cataclisma. Na onda e no turbilhão que se seguiram, energias fantásticas percorrendo distancias inconcebíveis desabaram sobre duas estrelas gigantescas que se rasgaram. E uma galáxia inteira se colapsou.

Incontinente, ele não se moveu.

Lançado longe por sua própria tentativa, consciente entretanto do arroubo de seu terrível poder, novamente atacou, o maligno. Na segunda feita, foi tão violento o embate, que o primeiro não pode se segurar no tecido do invisível, sendo arremessado impetuosamente ao centro de uma terceira estrela, atravessando-a como fosse uma espada afiada.

O de trevas avançou violentamente e então rasgou a estrela ferida indo ao encontro do primeiro anjo.

Noutra torrente de interminável escuridão, se lançou para destruir o formidável ser.

Dobraram-se mais uma vez as estruturas das dimensões e expostas foram as vísceras das constelações, vindo outra galáxia a contorcer, gemer e perecer.

Turbilhões de gás se espalharam no fatídico dia em que nasceram as nebulosas.

Do vento feito de energia, o tecido da existência foi arrastado formando-se assim os buracos negros.

Incandescia a fronte do formidável...

... Quando pela primeira vez...

Aquele que era como a luz...

... revidou.

Welington Language Institute

Meu amor,

Olha só

Hoje o sol

Não apareceu

Numa apresentação da

Twenty Century Welington

É o fim

Da aventura humana,

Na terra

Coprodução da fantástica

Welington Corporation

Meu planeta adeus,

Fugiremos nós dois na arca de Noé

patrocínio

By Welington

Productions

Olha meu amor,

O final da odisséia terrestre

Sou Adão e você será

Prólogo

11 de setembro de 1823

“— Há muito dia passado, rumando pro sol poente, numa terra virge dos homî, vermelhos ou brancos, lá na terra de Urucu, foi que se assucedeu.

Os olhos vivos de Eliã deixavam transparecer seus pesadelos, suas recordações e seus sonhos. — Ôô-îuká. (Eles matam em Tupi-Guarani) disse minha avózinha, sobre as história que ascutou da sua mãe. Havia quatro menina, que já tinham sumido da aldeia, lá da tribo dos pataxó, que tinham nomis estranhos. Uma chamava Bela, otra Semente, uma era Canto e a otra Esperança. Minhas amigas, os meus laços e minhas irmãs, que moravam comigo na antiga taba, a grandiosa taba dos meus antigos ancestrais. Foi quando os bichos guinchavam nas noites sobre os Ipês e Sussuarunas, quando nas torrentes dos rios escureciam as águas do negro rio. As peste gritavam procurando minhas irmãs. Pajé falou pra ficar quieta, junto das armas que nem os mais valentes levantam, no dia das assombração. No dia da dor, quando os bicho arremeteu, eu perdi minhas irmã. Chorei noite a dentro pelas minhas pequenas irmãs. Decidi cumigo merma: essa noite eu vou atrás desses bicho assassino, que tiraram a luz dos olhos brilhantes. Se eu morrê, que me enterrem no rio, que num mi importa mais. Essa noite eu vou sai pra caçá, que era assunto proibido pras mulher da minha tribo. Num importa, essa noite eu vou sair pra caçá, com a lâmina que brilha, que os valente da minha tribo encontrou na noite em que os céus queimou, lá no igarapé, cravada nas raíz da castanheira. Faca enorme, esquisita, que vez por outra ilumina como fogo de carvão, mesmo cum noite sem estrela. Os valente disseram que é a lança que Tupã jogou na terra. Essa lança que eu vou usá contra a coisa ruim, já que flecha num adianta, já que grito e fogo num espanta as criatura, vou assim mesmo.

Assim Eliã contou a história para as de sua descendência, onde haveriam de nascer outras Eliãs. E assim a cada década, a anciã que representaria a mais idosa do clã reuniria sua parentela para narrar os fatos que deram origem a lenda. Lenda que seria contada desde essa noite perdida nas folhas sobre folhas, das incontáveis folhas do chão da floresta do tempo.

— Num olhei pras costa, num vi que me acercava as árvore, quando se assucedia das trevas me encobrí como coberta, porque só alembrava das minha irmã. Ia chorando, aos pés das aroeira e ipê, desviando dos cipós que caíam sobre as árvores, como teias daquelas aranhas caranguejeiras. — A velha índia com cabelos embranquecidos, pele crespa do tempo, falava com uma voz pausada e firme, para a multidão das crianças ao redor do cajueiro, ao lado da velha cabana, daquela vila de Coari. Os olhos das crianças, sentadas no chão, debruçadas sobre a relva, pisando pés de arbustos de confrei, ou sentadas sobre os galhos dos cajueiros, cintilavam a cada palavra que brotava da boca da anciã. As mães de pele morena, longas cabeleiras negras e lisas, apertavam suas crianças de colo ao peito, enquanto homens avermelhados, com cabelos curtos e negros como o corvo, seguravam as velhas lanças da tribo que já não existia mais. Moradores de Coari, trabalhadores em fazendas, catadores de castanhas, plantadores de guaraná e pescadores de rostos rudes, participantes da massa de gente que se ajuntava naquele dia de declarações. Tucanos curiosos e araras gigantescas se ajeitavam sobre os imensos galhos dos cajueiros, ao lado das crianças, interrompendo vez por outra a palestra com seu chalrear e com seus berros. Firmando as mãos encarquilhadas sobre um tosco bordão a velha Eliã continuou:

— Enxugava com uma das mãos os rios d’água que brotavam dos meus olhos de menina, quando o coisa-ruim berrou do outro lado da floresta. O grito do animal cortava o vento como o fogo, crispando a palha e me fazia tremer como um macaco acuado pela onça. Depois do grito eu sabia, ah! Eu sabia... que viria o pipocar das árvore e o romper dos galho, quando a criatura incansável corresse na minha direção. Eu num tava muito distante do grito e sbia que já tava morta. Num tinha mais como escapá da criatura. E também num importava mais. A macacada desesperada fugia pelos galhos altos dos Tucumanzeiros enquanto uma revoada de tucanos já mostrava que o bicho-ruim tava chegando.

As crianças demonstravam desconforto cada vez que o bicho era mencionado. As de colo se apertavam mais ainda aos seios de suas mães. Os mais idosos seguravam seus chapéis de palha e batiam os pés descompassadamente. Eliã continuou:

— Ouvi o grito da criatura e me tremi toda. O vento soprava por dentro da floresta e o chão tremia com as pancadas das patas do animal. Eu apertei a espada, enrolada na tapuá trançada de fibra de juça que guardava Mouajé, e deixei Mouajé nua, a espada cintilante do extinto Igarapé. Longe ouvi os tronco sendo despedaçado, e longe ouvi as árvore gritando de dor pelas mãos do animal destruidor. Os troncos partia com o som dos ribombá dos trovão, igual quando nas chuva se derrama os raio. Eu tava na clareira, perto do rio negro, perto onde minhas irmãs morreram. Foi quando vi as árvore gigantescas sendo jogadas pro alto enquanto vinha o monstro em minha direção. Quanto mais ele se apruximava, mais árvore caia perto. Inté que caíram as duas últimas que faziam a fronteira da clareira. Os olhos do bicho faiscavam. Minhas mãos tremiam. Meus pés tremiam. Meu coração tremeu. E daí? Eu num ia imbora mesmo. Eu num tinha pra onde me esconder, num tinha pra onde correr. Eu num tinha mais nenhuma irmã. Foi intão que o bicho veio correndo em minha direção. E foi intão que eu corri na direção do coisa-ruim. Eu num só alembro de levanta a Mouajé e escuta um ronco, um trovão, um negócio que parecia um raio batendo ni mim, que me arrepiou os cabelo, quando a coisa me tocou. E inda ouvi o grito da criatura que me estrondou os ouvido. Ai eu só avistei a escuridão. Quando me encontram a clareira inda pegava fogo, enquanto deitada eu no sangue de minhas mãos. Só num queimei porque chovia.

Chovia dimais...”

Terminada a prosa, entoando cantigas ancestrais, a imensa família rumava para barcaças de proa esverdeada, amarradas em cais improvisados, na beira do barrento rio Solimões. No percurso tortuoso que duraria três dias, os barcos seguiriam iluminados por antigos lampiões cheios de óleo de peixe boi, que vistos dos céus de noite seriam como pingos dourados piscando ao longo de um caminho ora negro, ora prateado, destacando-se em densa e úmida escuridão. Dois rios após adentrariam as águas negro-esverdeadas apinhadas de piranhas e botos brancos do antigo Urucu. Então, descendo a grandiosa comitiva, caminhariam léguas pela floresta úmida, pisando a pé os Igarapés, de onde, na época, mui longe, se avistavam cabanas toscas de larga frente, montadas sobre árvores, pertencentes às raras famílias ribeirinhas que viviam da colheita de castanhas. Caminhariam até a imensa e lendária clareira, debaixo dos gritos de papagaios dourados, envoltos pelo véu da noite estrelada, onde depositariam flores aos pés de pequenas pedras brancas, cravadas no chão da lendária clareira, aonde se liam os nomes:

Bella, Sementhi, Cantho e Essperancça

Então desembrulhavam a antiga espada brilhante, envolvida nas fibras de juça, e a balançavam suavemente gerando nuances azuis e violetas, quando de mão em mão dançava a espada, até retornar às mãos da velha Eliã, que a tornava a embrulhar.

E a chorar.

Capítulo Primeiro

"A vida é como um sutiã, por isso, meta os peitos"

11 de agosto de 1999

Dentre as muitas histórias deste livro, não poderia deixar de narrar a fábula do amor entre Nexter e Aninha. Desde as primeiras cartas, dos fantásticos desencontros e por fim o inesquecível desfecho da história. Aninha, Nexter conheceu só por cartazes. Menina propaganda de uma grande empresa de telecomunicações, de olhos azuis e cabelos negros azulados, tês alva e sorriso incomparável. Ninguém sabe ao certo como ele conseguiu o e-mail dela. Os dois hackers de Urucu, o Aluízio ceará e o temido Carlos Borges guardaram silêncio absoluto sobre o assunto em questão. Contam somente que numa dessas viagens para Urucu, no desembarque no aeroporto, os dois que se substituíam na estadia dentro da província petrolífera, num regime de 14 dias internados por 14 de folga em seu estado de origem, se depararam com Nexter sonhando acordado diante de um imenso cartaz de sua musa inspiradora. Depois de conversarem por quase uma hora e continuarem, ainda assim vendo-o naquela mesmíssima pose de deslumbramento, como se o tempo tivesse parado, tiveram a suprema inspiração. Diz a lenda que foi neste momento lúdico, que eles, nossos poderosos hackers, começaram a busca pelo e-mail de Aninha.

Ninguém dormiu naquela noite mágica, quando o tal e-mail apareceu num bilhete escrito no bolso do macacão alaranjado do Nexter. E como não poderia deixar de ser, quando as cópias dos e-mails enamorados foram distribuídas por vários povoados ao norte de Coari, ninguém jamais descobriu como foram copiados. A primeira carta era espetacular:

Oi. Eu sou o teu maior fã. E mesmo sendo estranho que eu, um completo desconhecido, a quem você certamente só ouviria por educação do que por qualquer outro motivo, queria aproveitar este momento eterno, ao menos para mim, essa oportunidade única, pra te dizer que te amo. Que amo esses teus olhos, amo esse teu sorriso e o jeito como teus lábios se movem, quando teus olhos que sempre queimam em mim, sorriem juntamente. Você poderia me questionar, perguntando — Como pode me amar sem me conhecer... Sem saber como sou... Sem saber quem sou? — É porque vejo um pouco de você através de teus olhos, e do teu sorriso. E mesmo que você fosse insuportável, ou geniosa, e mesmo prepotente, ou arrogante, se um terço, somente um terço do que me transmite o teu olhar, essa dignidade oculta, essa vontade de viver imberbe, indizível, se somente um terço de tudo que eu sinto quando te percorrem meus olhos, for verdadeiro, só por isso já vale o fato irrevogável de te amar por todos os meus dias, mesmo porque eu irei sorrir a cada dia que te vir sorrir, inda que numa foto emoldurada, pois isto é algo sobre o qual não tenho controle. Pelo caminho que terei que cursar, te levando em sonhos, te amando aos poucos, não poderia evitá-lo. Não pense que me ufano sobre tua perfeição, e não te enganes que eu não virei a te adorar, a não ser como carinho, não estenderei um altar sobre ti, sobre o qual venha a queimar velas. Você não é minha deusa, jamais será minha dona. Você é minha dádiva, meu encanto e meu amor, mesmo que quisesse não te esqueceria, pois vives nos recantos da minha personalidade. Esse coração, talvez infeliz, te elegeu como musa e se recusa terminantemente a te abdicar. Não irei morrer por você, não me ufano do teu amor, e não me faria diferença a tua indiferença. Porque, por mais ferido que fosse, esse bastardo coração, já fazes parte dos meus dias e das minhas noites, destas que são contadas como o tempo que me foi concedido para viver...”

Não é necessário dizer como as meninas de Urucu suspiravam a cada embarque de Nexter...

E também não seria necessário dizer que quase perdemos, por motivos vingativos tácitos e mórbidos e cruéis, nossa inestimável dupla de Apoio na área de Informática.

Impressionantemente, toda história possui um começo. E por mais assombroso que possa parecer, a nossa história, nossa interessante jornada, se inicia agora...

Dublado nos estudios do Mem Ex Group

Era uma vez um certo grupo de Engenharia que sempre possuía um corpo de técnicos fiscais de obras industriais, à prova de intempéries, bravos, destemidos, homens acima de quaisquer suspeita, que dominavam disciplinas técnicas diversificadas tais como: Instrumentação, Eletricidade, Mecânica, Tubulação, Civil, Física Nuclear, e outras inumeráveis disciplinas, sendo capazes de trabalhar, fosse no pólo norte até ao interior de selvas africanas. E perpertua a Lenda que para todos os outros casos, existia o Exílio.

O ‘mardito’ Exílio

Havia um cerimonial que aplicávamos quando ocorria a convocação de um pobre coitado, digo, alijado, digo, algum infeliz, quer dizer, um dos “agraciados” que trabalharia em algum lugar, usualmente, um pouco além de onde a civilização termina. Escrita com nanquim num pedaço de sépia enrolada que nomeamos: Pergaminho da chamada abrupta.

Ei-la:

Na densa escuridão da noite, durante o período que os trovões levam, antes do próximo relampejar, trepidavam patas ferradas do corcel negro, ferrando as poças da lama ocre no caminho lamacento até o lendário castelo das forças de ocupação. O alvo dos olhos dos animais resplandecia, junto a sua escura crina a cada raio que os iluminava. Montado sobre o negro animal, Morfagnad, o mensageiro das terras distantes, com suas indumentárias escuras e encharcadas, grita para os guardas à frente dos gigantescos portais da antiga fortaleza. As imensas portas são abaixadas, enquanto ele ainda chicoteia o alazão, ao sonido agora ocre, do trope nas pedras lavradas, recobertas de liquens acizentados do pátio castelar.

Da sacada superior, uma sombria figura observa a chegada de Morfagnad, o mensageiro. Deixando sua cansada montaria, Morfagnad caminha, como arrasta-se a si mesmo, até o grande salão de pórfiro e granito, enquanto um sombrio conselheiro vai murmurando algum aviso para aquele que se assenta sobre uma gigantesca cadeira adornada de púrpura e de madeira ricamente trabalhada. Quase um trono. O mensageiro entra solene pelas portas palacianas, subindo até o lugar do grande salão rodeado de colunas de rosacrocita. Ele pára, subitamente, e se ajoelha, enquanto as abas de suas vestimentas molhadas enchem como um vestido o lugar onde se abaixara. Na verdade, usa uma capa. Negra. Aquele que está sentado não se vira para cumprimentá-lo. De costas ainda, levanta uma das mãos com a luva de couro e faz um gesto com a ponta dos dedos, somente abrindo a mão, sob os olhos malévolos e semicerrados do sombrio homem ao seu lado direito. O mensageiro se levanta e caminha, enquanto sua sombra se projeta na cortinada das colunas, através da luz das lamparinas acesas com óleo de baleia Albina. Ao longe se esconde uma menina de olhos encantadores azuis, vestida com uma roupa mesclando azul e branco, com um avental vermelho, uma das dezenas de serviçais do imenso castelo. Seus cabelos negros avermelham-se pelas luzes e matizes das lamparinas cujas chamas tremulam naquele dia de tormenta e tempestade. O ruído de suas botas de couro molhadas sobressaem agora no silencioso salão, reverberando a cada passo sobre o pórfiro impecavelmente polido. Próximo ao homem assentado, ao se achegar, se ajoelha novamente em reverência. Fala então:

— Ó coordenador do castelo. Nossos guerreiros dalém, nas terras distantes, que batalham já a longo tempo, necessitam dos préstimos de um dos servos sob tua alçada. O coordenador das terras distantes me enviou a ti, para que, encontrando mercê diante de ti, dignasses a conceder-nos um dos teus homens para nos socorrer.

Quebrava-se o silêncio sepulcral, através do murmúrio do vento soprando entre as frestas, das pedras nas paredes, soando como fosse um antigo órgão tubular. O olhar do sombrio homem ao lado do coordenador, semicerrou-se ainda mais. Por fim o homem assentado falou:

— Escolhe aquele que queres, e depois to enviarei. Por tempo determinado. Trava então tu, as batalhas que dele dependeres, entretanto, saibas, que este voltará quando minha vontade assim o determinar.

O mensageiro se levanta. Com cortesia agradece, enrola o manto negro sobre o rosto e prepara-se para partir. Desta vez o sombrio homem, até aquele momento calado, com uma voz de ratazana completou o enunciado:

— Lembra-te... Por tempo determinado...

O mensageiro se inclina ligeiramente, dando meia-volta e sumindo na penumbra do castelo. Um relinchar apavorante se ouviu. E depois a chuva. Somente a chuva. Nada mais.”

Esta sombria história localizava-se num rolo, no “Fabuloso pergaminho da chamada abrupta” o qual, simbolicamente, nos era entregue por algum colega (sádico) de trabalho no “dia da chamada”. O “dia da chamada” era o trágico dia em que algum chefe de Obra desesperado iria convocar um técnico qualquer, para trabalhar em algum lugar qualquer, onde os requisitos mínimos necessários fossem capacitação em: ‘Combate a incêndio’, ‘Primeiros Socorros’, ‘Guia básico de como sobreviver a quedas de avião em florestas densas’ e um ‘Atestado de vacinação para tifo, febre amarela, malária, tétano e o que mais ocorresse.’.

Naquele dia na sede do prédio de Engenharia, eu que havia sido emprestado para o setor de Orçamento, digitava uma dessas planilhas gigantescas em Excel, quando recebi o telefonema do meu setor de origem. O dia da ‘chamada’ chegara. Em verdade era o que o pessoal chamava de Fiscal de Campo, um desses sujeitos que carregava uma prancheta na mão percorrendo trechos de plantas industriais, procurando algum tipo de montagem em desacordo com as normas. No meu caso, normas de eletricidade. De “Campo”, nós apelidávamos qualquer Unidade Industrial, Obra ou Instalação. De “Sede” nomeávamos de Escritório. E ali estava eu, na Sede, há seis meses, em virtude do término das obras. Meus olhos doíam de tanto olhar para a tela do computador, ao lado de um colega de nome Helon, Analista de Sistema do setor. Atendi. Era meu chefe.

— Oi Welington, tudo bem? Como estamos? Estou ligando para te dizer que estão precisando de uma pessoa de eletricidade numa obra no Norte.

— Onde? Quanto tempo?

— No máximo por três meses. Começa semana que vem. Você vai substituir um técnico. Tudo bem?

— Onde?

— Pertinho, fica tranqüilo.

— Quem vai estar lá?

— Alguns você já conhece. Lembra do Jayme? Também estarão lá o Aluízio Xavier, fiscal de tubulação, aquele paraibano. Vai estar lá o ‘cientista louco’ Nexter, o japa, Hikano. Na área de Segurança o Alexandre... E o andróide.

— O Boot? Já estão aceitando ‘máquinas’ na fiscalização?

— A carência de mão de obra é muito grande aonde você vai.

— E posso saber para onde estou sendo enviado?

— Olha, não posso dar mais detalhes agora, porque tenho uma reunião. Fica tranqüilo. As passagens de avião eu já mandei para sua casa! Até mais...

O Helon olhou para minha expressão de ‘terror sobrenatural’, misturado com ‘espanto e pasmo’, sorrindo ele abriu uma gaveta, tirando de dentro dela uma caixinha negro-esmeralda. Retirou da pequena caixa ‘o Pergaminho’ e o colocou sobre minhas mãos. E apesar de não ser uma prática consolidada, cantou-me a velha canção:

I'm singing in the rain
Just singin' in the rain
What a glorious feeling
I'm happy again
I'm laughing at clouds
So dark up above
The sun's in my heart
And I'm ready for love
Let the stormy clouds chase
Everyone from the place
Come on with the rain
I've a smile on my face
I walk down the lane
With a happy refrain
Singin', just singin' in the rain
Dancing in the rain 
Ohh ia ohh ia ia
I'am happy again
I'am singing and dancing'in the rain
...
dancing and singin'in the rain

E como chovia naquela floresta, eu viria a descobrir...

Quando eu era um filhote, digo, pequeno, recordo que aconteceu uma grande e tremenda tempestade. De pés descalços e sem camisa, avistei as nuvens escurecendo cada vez mais, vindo de longe e se aproximando, enquanto uma ventania descomunal fazia pequenos rodamoinhos. Logo os céus eram somente escuridão, e a chuva torrencial descia abundante enquanto eu corria para o apartamento onde morava, procurando me abrigar. As crianças desde cedo se encantam com a chuva. Perdi a conta das vezes que permanecia contemplando as gotas de chuva escorrendo na janela, percorrendo o vidro que era preso com massa de vidraceiro em caixilhos de madeira.

O Exílio era logo ali, ali a 620 Km de Manaus, onde o vento não faz a curva, simplesmente porque não consegue passar pelas árvores centenárias, de tão próximas que alcançavam quase cento e vinte metros de altura.

O Exílio era logo ali, às margens do rio Urucu.

E em breve, muito breve eu estaria lá.

Fantásticas memórias do exílio

14
Dez07

Fantásticas memórias do Exílio

wellcorp



E foram histórias tristes
Dentre fábulas fantásticas
E desceram montes apáticos
Vestidos de couraças gélidas
E criam naquelas bandeiras
Na verdade, estandartes levantados
Por jovens de mãos fortes
Acostumados com o gemido das batalhas
E foram torrões acesos
Brilhando com suas espadas
Por entre as vielas Curdas
Por entre os pastos queimados
Sangrando homens treinados
Gritavam cavalos baios
Brindavam espadas raras
Cresciam pavores plenos
Marechais e comandantes
Seus soldados agora errantes
Entre as pilhas dos caídos
Entre os gritos dos vencidos
Avante! Cavalos baios
Por esses morros infames
Lutar na guerra sem nome
Até não poder correr mais livremente
Até que só sobre a fome.
Caiam desfraldadas bandeiras
Caiam pendões entre mãos trêmulas
Até que se aquietem os vales
Até que se aquietem os vales

Todos os personagens deste livro são fictícios.

Qualquer semelhança com alguém real é mera coincidência...

Inclusive o autor...

E o livro...

Talvez...

Quem saberá ao certo?

Você que o lê agora...

Sobre a Guerra

Houve um tempo além do tempo, quando as estrelas recém nascidas ainda quentes emanavam mais luz que olhos humanos seriam capazes de enxergar, num lugar impensado, diante de paisagens deslumbrantes, rodeadas de espectros e cores hoje inexistentes, onde anéis de asteróides feitos de cristais de ametista e nuvens de gás feitas de azul cintilante mescladas de faixas prateadas entrecortavam os espaços celestiais.

Houve um tempo, além do tempo que um anjo translúcido e reluzente, em movimentos espirais de significados desconhecidos, correu em direção a um segundo e tenebroso anjo, com ordem de não deixá-lo passar. Numa época de desatino e loucura na qual alucinadamente, num delírio espectral, anjos escolheram as trevas como casa e a escuridão como envoltório. E nesse hiato entre o que foi e o que o universo veio a se tornar, entre a eternidade passada e o passado da eternidade, um destes mensageiros de trevas foi interceptado por outro mensageiro, que recusando as trevas confirmou para sua morada a própria luz.

Quando se viu perseguido, o maligno, numa reviravolta espantosa, se atirou sobre o primeiro. O que vinha em perseguição esperou a iminente colisão.

Os dois oponentes diametralmente se chocaram ao norte da imensidão. Lá onde hoje, se estende o vazio. O que não tinha nome, cuja origem era a luz, permaneceu impassível diante do cataclisma. Na onda e no turbilhão que se seguiram, energias fantásticas percorrendo distancias inconcebíveis desabaram sobre duas estrelas gigantescas que se rasgaram. E uma galáxia inteira se colapsou.

Incontinente, ele não se moveu.

Lançado longe por sua própria tentativa, consciente entretanto do arroubo de seu terrível poder, novamente atacou, o maligno. Na segunda feita, foi tão violento o embate, que o primeiro não pode se segurar no tecido do invisível, sendo arremessado impetuosamente ao centro de uma terceira estrela, atravessando-a como fosse uma espada afiada.

O de trevas avançou violentamente e então rasgou a estrela ferida indo ao encontro do primeiro anjo.

Noutra torrente de interminável escuridão, se lançou para destruir o formidável ser.

Dobraram-se mais uma vez as estruturas das dimensões e expostas foram as vísceras das constelações, vindo outra galáxia a contorcer, gemer e perecer.

Turbilhões de gás se espalharam no fatídico dia em que nasceram as nebulosas.

Do vento feito de energia, o tecido da existência foi arrastado formando-se assim os buracos negros.

Incandescia a fronte do formidável...

... Quando pela primeira vez...

Aquele que era como a luz...

... revidou.

Welington Language Institute

Meu amor,

Olha só

Hoje o sol

Não apareceu

Numa apresentação da

Twenty Century Welington

É o fim

Da aventura humana,

Na terra

Coprodução da fantástica

Welington Corporation

Meu planeta adeus,

Fugiremos nós dois na arca de Noé

patrocínio

By Welington

Productions

Olha meu amor,

O final da odisséia terrestre

Sou Adão e você será

Prólogo

11 de setembro de 1823

“— Há muito dia passado, rumando pro sol poente, numa terra virge dos homî, vermelhos ou brancos, lá na terra de Urucu, foi que se assucedeu.

Os olhos vivos de Eliã deixavam transparecer seus pesadelos, suas recordações e seus sonhos. — Ôô-îuká. (Eles matam em Tupi-Guarani) disse minha avózinha, sobre as história que ascutou da sua mãe. Havia quatro menina, que já tinham sumido da aldeia, lá da tribo dos pataxó, que tinham nomis estranhos. Uma chamava Bela, otra Semente, uma era Canto e a otra Esperança. Minhas amigas, os meus laços e minhas irmãs, que moravam comigo na antiga taba, a grandiosa taba dos meus antigos ancestrais. Foi quando os bichos guinchavam nas noites sobre os Ipês e Sussuarunas, quando nas torrentes dos rios escureciam as águas do negro rio. As peste gritavam procurando minhas irmãs. Pajé falou pra ficar quieta, junto das armas que nem os mais valentes levantam, no dia das assombração. No dia da dor, quando os bicho arremeteu, eu perdi minhas irmã. Chorei noite a dentro pelas minhas pequenas irmãs. Decidi cumigo merma: essa noite eu vou atrás desses bicho assassino, que tiraram a luz dos olhos brilhantes. Se eu morrê, que me enterrem no rio, que num mi importa mais. Essa noite eu vou sai pra caçá, que era assunto proibido pras mulher da minha tribo. Num importa, essa noite eu vou sair pra caçá, com a lâmina que brilha, que os valente da minha tribo encontrou na noite em que os céus queimou, lá no igarapé, cravada nas raíz da castanheira. Faca enorme, esquisita, que vez por outra ilumina como fogo de carvão, mesmo cum noite sem estrela. Os valente disseram que é a lança que Tupã jogou na terra. Essa lança que eu vou usá contra a coisa ruim, já que flecha num adianta, já que grito e fogo num espanta as criatura, vou assim mesmo.

Assim Eliã contou a história para as de sua descendência, onde haveriam de nascer outras Eliãs. E assim a cada década, a anciã que representaria a mais idosa do clã reuniria sua parentela para narrar os fatos que deram origem a lenda. Lenda que seria contada desde essa noite perdida nas folhas sobre folhas, das incontáveis folhas do chão da floresta do tempo.

— Num olhei pras costa, num vi que me acercava as árvore, quando se assucedia das trevas me encobrí como coberta, porque só alembrava das minha irmã. Ia chorando, aos pés das aroeira e ipê, desviando dos cipós que caíam sobre as árvores, como teias daquelas aranhas caranguejeiras. — A velha índia com cabelos embranquecidos, pele crespa do tempo, falava com uma voz pausada e firme, para a multidão das crianças ao redor do cajueiro, ao lado da velha cabana, daquela vila de Coari. Os olhos das crianças, sentadas no chão, debruçadas sobre a relva, pisando pés de arbustos de confrei, ou sentadas sobre os galhos dos cajueiros, cintilavam a cada palavra que brotava da boca da anciã. As mães de pele morena, longas cabeleiras negras e lisas, apertavam suas crianças de colo ao peito, enquanto homens avermelhados, com cabelos curtos e negros como o corvo, seguravam as velhas lanças da tribo que já não existia mais. Moradores de Coari, trabalhadores em fazendas, catadores de castanhas, plantadores de guaraná e pescadores de rostos rudes, participantes da massa de gente que se ajuntava naquele dia de declarações. Tucanos curiosos e araras gigantescas se ajeitavam sobre os imensos galhos dos cajueiros, ao lado das crianças, interrompendo vez por outra a palestra com seu chalrear e com seus berros. Firmando as mãos encarquilhadas sobre um tosco bordão a velha Eliã continuou:

— Enxugava com uma das mãos os rios d’água que brotavam dos meus olhos de menina, quando o coisa-ruim berrou do outro lado da floresta. O grito do animal cortava o vento como o fogo, crispando a palha e me fazia tremer como um macaco acuado pela onça. Depois do grito eu sabia, ah! Eu sabia... que viria o pipocar das árvore e o romper dos galho, quando a criatura incansável corresse na minha direção. Eu num tava muito distante do grito e sbia que já tava morta. Num tinha mais como escapá da criatura. E também num importava mais. A macacada desesperada fugia pelos galhos altos dos Tucumanzeiros enquanto uma revoada de tucanos já mostrava que o bicho-ruim tava chegando.

As crianças demonstravam desconforto cada vez que o bicho era mencionado. As de colo se apertavam mais ainda aos seios de suas mães. Os mais idosos seguravam seus chapéis de palha e batiam os pés descompassadamente. Eliã continuou:

— Ouvi o grito da criatura e me tremi toda. O vento soprava por dentro da floresta e o chão tremia com as pancadas das patas do animal. Eu apertei a espada, enrolada na tapuá trançada de fibra de juça que guardava Mouajé, e deixei Mouajé nua, a espada cintilante do extinto Igarapé. Longe ouvi os tronco sendo despedaçado, e longe ouvi as árvore gritando de dor pelas mãos do animal destruidor. Os troncos partia com o som dos ribombá dos trovão, igual quando nas chuva se derrama os raio. Eu tava na clareira, perto do rio negro, perto onde minhas irmãs morreram. Foi quando vi as árvore gigantescas sendo jogadas pro alto enquanto vinha o monstro em minha direção. Quanto mais ele se apruximava, mais árvore caia perto. Inté que caíram as duas últimas que faziam a fronteira da clareira. Os olhos do bicho faiscavam. Minhas mãos tremiam. Meus pés tremiam. Meu coração tremeu. E daí? Eu num ia imbora mesmo. Eu num tinha pra onde me esconder, num tinha pra onde correr. Eu num tinha mais nenhuma irmã. Foi intão que o bicho veio correndo em minha direção. E foi intão que eu corri na direção do coisa-ruim. Eu num só alembro de levanta a Mouajé e escuta um ronco, um trovão, um negócio que parecia um raio batendo ni mim, que me arrepiou os cabelo, quando a coisa me tocou. E inda ouvi o grito da criatura que me estrondou os ouvido. Ai eu só avistei a escuridão. Quando me encontram a clareira inda pegava fogo, enquanto deitada eu no sangue de minhas mãos. Só num queimei porque chovia.

Chovia dimais...”

Terminada a prosa, entoando cantigas ancestrais, a imensa família rumava para barcaças de proa esverdeada, amarradas em cais improvisados, na beira do barrento rio Solimões. No percurso tortuoso que duraria três dias, os barcos seguiriam iluminados por antigos lampiões cheios de óleo de peixe boi, que vistos dos céus de noite seriam como pingos dourados piscando ao longo de um caminho ora negro, ora prateado, destacando-se em densa e úmida escuridão. Dois rios após adentrariam as águas negro-esverdeadas apinhadas de piranhas e botos brancos do antigo Urucu. Então, descendo a grandiosa comitiva, caminhariam léguas pela floresta úmida, pisando a pé os Igarapés, de onde, na época, mui longe, se avistavam cabanas toscas de larga frente, montadas sobre árvores, pertencentes às raras famílias ribeirinhas que viviam da colheita de castanhas. Caminhariam até a imensa e lendária clareira, debaixo dos gritos de papagaios dourados, envoltos pelo véu da noite estrelada, onde depositariam flores aos pés de pequenas pedras brancas, cravadas no chão da lendária clareira, aonde se liam os nomes:

Bella, Sementhi, Cantho e Essperancça

Então desembrulhavam a antiga espada brilhante, envolvida nas fibras de juça, e a balançavam suavemente gerando nuances azuis e violetas, quando de mão em mão dançava a espada, até retornar às mãos da velha Eliã, que a tornava a embrulhar.

E a chorar.

Capítulo Primeiro

"A vida é como um sutiã, por isso, meta os peitos"

11 de agosto de 1999

Dentre as muitas histórias deste livro, não poderia deixar de narrar a fábula do amor entre Nexter e Aninha. Desde as primeiras cartas, dos fantásticos desencontros e por fim o inesquecível desfecho da história. Aninha, Nexter conheceu só por cartazes. Menina propaganda de uma grande empresa de telecomunicações, de olhos azuis e cabelos negros azulados, tês alva e sorriso incomparável. Ninguém sabe ao certo como ele conseguiu o e-mail dela. Os dois hackers de Urucu, o Aluízio ceará e o temido Carlos Borges guardaram silêncio absoluto sobre o assunto em questão. Contam somente que numa dessas viagens para Urucu, no desembarque no aeroporto, os dois que se substituíam na estadia dentro da província petrolífera, num regime de 14 dias internados por 14 de folga em seu estado de origem, se depararam com Nexter sonhando acordado diante de um imenso cartaz de sua musa inspiradora. Depois de conversarem por quase uma hora e continuarem, ainda assim vendo-o naquela mesmíssima pose de deslumbramento, como se o tempo tivesse parado, tiveram a suprema inspiração. Diz a lenda que foi neste momento lúdico, que eles, nossos poderosos hackers, começaram a busca pelo e-mail de Aninha.

Ninguém dormiu naquela noite mágica, quando o tal e-mail apareceu num bilhete escrito no bolso do macacão alaranjado do Nexter. E como não poderia deixar de ser, quando as cópias dos e-mails enamorados foram distribuídas por vários povoados ao norte de Coari, ninguém jamais descobriu como foram copiados. A primeira carta era espetacular:

Oi. Eu sou o teu maior fã. E mesmo sendo estranho que eu, um completo desconhecido, a quem você certamente só ouviria por educação do que por qualquer outro motivo, queria aproveitar este momento eterno, ao menos para mim, essa oportunidade única, pra te dizer que te amo. Que amo esses teus olhos, amo esse teu sorriso e o jeito como teus lábios se movem, quando teus olhos que sempre queimam em mim, sorriem juntamente. Você poderia me questionar, perguntando — Como pode me amar sem me conhecer... Sem saber como sou... Sem saber quem sou? — É porque vejo um pouco de você através de teus olhos, e do teu sorriso. E mesmo que você fosse insuportável, ou geniosa, e mesmo prepotente, ou arrogante, se um terço, somente um terço do que me transmite o teu olhar, essa dignidade oculta, essa vontade de viver imberbe, indizível, se somente um terço de tudo que eu sinto quando te percorrem meus olhos, for verdadeiro, só por isso já vale o fato irrevogável de te amar por todos os meus dias, mesmo porque eu irei sorrir a cada dia que te vir sorrir, inda que numa foto emoldurada, pois isto é algo sobre o qual não tenho controle. Pelo caminho que terei que cursar, te levando em sonhos, te amando aos poucos, não poderia evitá-lo. Não pense que me ufano sobre tua perfeição, e não te enganes que eu não virei a te adorar, a não ser como carinho, não estenderei um altar sobre ti, sobre o qual venha a queimar velas. Você não é minha deusa, jamais será minha dona. Você é minha dádiva, meu encanto e meu amor, mesmo que quisesse não te esqueceria, pois vives nos recantos da minha personalidade. Esse coração, talvez infeliz, te elegeu como musa e se recusa terminantemente a te abdicar. Não irei morrer por você, não me ufano do teu amor, e não me faria diferença a tua indiferença. Porque, por mais ferido que fosse, esse bastardo coração, já fazes parte dos meus dias e das minhas noites, destas que são contadas como o tempo que me foi concedido para viver...”

Não é necessário dizer como as meninas de Urucu suspiravam a cada embarque de Nexter...

E também não seria necessário dizer que quase perdemos, por motivos vingativos tácitos e mórbidos e cruéis, nossa inestimável dupla de Apoio na área de Informática.

Impressionantemente, toda história possui um começo. E por mais assombroso que possa parecer, a nossa história, nossa interessante jornada, se inicia agora...

Dublado nos estudios do Mem Ex Group

Era uma vez um certo grupo de Engenharia que sempre possuía um corpo de técnicos fiscais de obras industriais, à prova de intempéries, bravos, destemidos, homens acima de quaisquer suspeita, que dominavam disciplinas técnicas diversificadas tais como: Instrumentação, Eletricidade, Mecânica, Tubulação, Civil, Física Nuclear, e outras inumeráveis disciplinas, sendo capazes de trabalhar, fosse no pólo norte até ao interior de selvas africanas. E perpertua a Lenda que para todos os outros casos, existia o Exílio.

O ‘mardito’ Exílio

Havia um cerimonial que aplicávamos quando ocorria a convocação de um pobre coitado, digo, alijado, digo, algum infeliz, quer dizer, um dos “agraciados” que trabalharia em algum lugar, usualmente, um pouco além de onde a civilização termina. Escrita com nanquim num pedaço de sépia enrolada que nomeamos: Pergaminho da chamada abrupta.

Ei-la:

Na densa escuridão da noite, durante o período que os trovões levam, antes do próximo relampejar, trepidavam patas ferradas do corcel negro, ferrando as poças da lama ocre no caminho lamacento até o lendário castelo das forças de ocupação. O alvo dos olhos dos animais resplandecia, junto a sua escura crina a cada raio que os iluminava. Montado sobre o negro animal, Morfagnad, o mensageiro das terras distantes, com suas indumentárias escuras e encharcadas, grita para os guardas à frente dos gigantescos portais da antiga fortaleza. As imensas portas são abaixadas, enquanto ele ainda chicoteia o alazão, ao sonido agora ocre, do trope nas pedras lavradas, recobertas de liquens acizentados do pátio castelar.

Da sacada superior, uma sombria figura observa a chegada de Morfagnad, o mensageiro. Deixando sua cansada montaria, Morfagnad caminha, como arrasta-se a si mesmo, até o grande salão de pórfiro e granito, enquanto um sombrio conselheiro vai murmurando algum aviso para aquele que se assenta sobre uma gigantesca cadeira adornada de púrpura e de madeira ricamente trabalhada. Quase um trono. O mensageiro entra solene pelas portas palacianas, subindo até o lugar do grande salão rodeado de colunas de rosacrocita. Ele pára, subitamente, e se ajoelha, enquanto as abas de suas vestimentas molhadas enchem como um vestido o lugar onde se abaixara. Na verdade, usa uma capa. Negra. Aquele que está sentado não se vira para cumprimentá-lo. De costas ainda, levanta uma das mãos com a luva de couro e faz um gesto com a ponta dos dedos, somente abrindo a mão, sob os olhos malévolos e semicerrados do sombrio homem ao seu lado direito. O mensageiro se levanta e caminha, enquanto sua sombra se projeta na cortinada das colunas, através da luz das lamparinas acesas com óleo de baleia Albina. Ao longe se esconde uma menina de olhos encantadores azuis, vestida com uma roupa mesclando azul e branco, com um avental vermelho, uma das dezenas de serviçais do imenso castelo. Seus cabelos negros avermelham-se pelas luzes e matizes das lamparinas cujas chamas tremulam naquele dia de tormenta e tempestade. O ruído de suas botas de couro molhadas sobressaem agora no silencioso salão, reverberando a cada passo sobre o pórfiro impecavelmente polido. Próximo ao homem assentado, ao se achegar, se ajoelha novamente em reverência. Fala então:

— Ó coordenador do castelo. Nossos guerreiros dalém, nas terras distantes, que batalham já a longo tempo, necessitam dos préstimos de um dos servos sob tua alçada. O coordenador das terras distantes me enviou a ti, para que, encontrando mercê diante de ti, dignasses a conceder-nos um dos teus homens para nos socorrer.

Quebrava-se o silêncio sepulcral, através do murmúrio do vento soprando entre as frestas, das pedras nas paredes, soando como fosse um antigo órgão tubular. O olhar do sombrio homem ao lado do coordenador, semicerrou-se ainda mais. Por fim o homem assentado falou:

— Escolhe aquele que queres, e depois to enviarei. Por tempo determinado. Trava então tu, as batalhas que dele dependeres, entretanto, saibas, que este voltará quando minha vontade assim o determinar.

O mensageiro se levanta. Com cortesia agradece, enrola o manto negro sobre o rosto e prepara-se para partir. Desta vez o sombrio homem, até aquele momento calado, com uma voz de ratazana completou o enunciado:

— Lembra-te... Por tempo determinado...

O mensageiro se inclina ligeiramente, dando meia-volta e sumindo na penumbra do castelo. Um relinchar apavorante se ouviu. E depois a chuva. Somente a chuva. Nada mais.”

Esta sombria história localizava-se num rolo, no “Fabuloso pergaminho da chamada abrupta” o qual, simbolicamente, nos era entregue por algum colega (sádico) de trabalho no “dia da chamada”. O “dia da chamada” era o trágico dia em que algum chefe de Obra desesperado iria convocar um técnico qualquer, para trabalhar em algum lugar qualquer, onde os requisitos mínimos necessários fossem capacitação em: ‘Combate a incêndio’, ‘Primeiros Socorros’, ‘Guia básico de como sobreviver a quedas de avião em florestas densas’ e um ‘Atestado de vacinação para tifo, febre amarela, malária, tétano e o que mais ocorresse.’.

Naquele dia na sede do prédio de Engenharia, eu que havia sido emprestado para o setor de Orçamento, digitava uma dessas planilhas gigantescas em Excel, quando recebi o telefonema do meu setor de origem. O dia da ‘chamada’ chegara. Em verdade era o que o pessoal chamava de Fiscal de Campo, um desses sujeitos que carregava uma prancheta na mão percorrendo trechos de plantas industriais, procurando algum tipo de montagem em desacordo com as normas. No meu caso, normas de eletricidade. De “Campo”, nós apelidávamos qualquer Unidade Industrial, Obra ou Instalação. De “Sede” nomeávamos de Escritório. E ali estava eu, na Sede, há seis meses, em virtude do término das obras. Meus olhos doíam de tanto olhar para a tela do computador, ao lado de um colega de nome Helon, Analista de Sistema do setor. Atendi. Era meu chefe.

— Oi Welington, tudo bem? Como estamos? Estou ligando para te dizer que estão precisando de uma pessoa de eletricidade numa obra no Norte.

— Onde? Quanto tempo?

— No máximo por três meses. Começa semana que vem. Você vai substituir um técnico. Tudo bem?

— Onde?

— Pertinho, fica tranqüilo.

— Quem vai estar lá?

— Alguns você já conhece. Lembra do Jayme? Também estarão lá o Aluízio Xavier, fiscal de tubulação, aquele paraibano. Vai estar lá o ‘cientista louco’ Nexter, o japa, Hikano. Na área de Segurança o Alexandre... E o andróide.

— O Boot? Já estão aceitando ‘máquinas’ na fiscalização?

— A carência de mão de obra é muito grande aonde você vai.

— E posso saber para onde estou sendo enviado?

— Olha, não posso dar mais detalhes agora, porque tenho uma reunião. Fica tranqüilo. As passagens de avião eu já mandei para sua casa! Até mais...

O Helon olhou para minha expressão de ‘terror sobrenatural’, misturado com ‘espanto e pasmo’, sorrindo ele abriu uma gaveta, tirando de dentro dela uma caixinha negro-esmeralda. Retirou da pequena caixa ‘o Pergaminho’ e o colocou sobre minhas mãos. E apesar de não ser uma prática consolidada, cantou-me a velha canção:

I'm singing in the rain
Just singin' in the rain
What a glorious feeling
I'm happy again
I'm laughing at clouds
So dark up above
The sun's in my heart
And I'm ready for love
Let the stormy clouds chase
Everyone from the place
Come on with the rain
I've a smile on my face
I walk down the lane
With a happy refrain
Singin', just singin' in the rain
Dancing in the rain 
Ohh ia ohh ia ia
I'am happy again
I'am singing and dancing'in the rain
...
dancing and singin'in the rain

E como chovia naquela floresta, eu viria a descobrir...

Quando eu era um filhote, digo, pequeno, recordo que aconteceu uma grande e tremenda tempestade. De pés descalços e sem camisa, avistei as nuvens escurecendo cada vez mais, vindo de longe e se aproximando, enquanto uma ventania descomunal fazia pequenos rodamoinhos. Logo os céus eram somente escuridão, e a chuva torrencial descia abundante enquanto eu corria para o apartamento onde morava, procurando me abrigar. As crianças desde cedo se encantam com a chuva. Perdi a conta das vezes que permanecia contemplando as gotas de chuva escorrendo na janela, percorrendo o vidro que era preso com massa de vidraceiro em caixilhos de madeira.

O Exílio era logo ali, ali a 620 Km de Manaus, onde o vento não faz a curva, simplesmente porque não consegue passar pelas árvores centenárias, de tão próximas que alcançavam quase cento e vinte metros de altura.

O Exílio era logo ali, às margens do rio Urucu.

E em breve, muito breve eu estaria lá.

Fantásticas memórias do exílio

14
Dez07

A língua do pê

wellcorp

A língua do pê

(Hélio Consolaro )

A língua permite algumas brincadeiras, aliás, na sua função poética está também o lúdico. Brincar com as palavras é também compor um poema. Leia abaixo:
Pedro Paulo Pereira Pinto, pequeno pintor português, pintava portas, paredes, portais. Porém pediu para parar porque preferiu pintar panfletos. Partindo para Piracicaba, pintou prateleiras para poder progredir. Posteriormente, partiu para Pirapora. Pernoitando, prosseguiu para Paranavaí, pois pretendia praticar pinturas para pessoas pobres. Porém, pouco praticou, porque Padre Paulo pediu para pintar panelas, porém, posteriormente, pintou pratos para poder pagar promessas. Pálido, porém personalizado, preferiu partir para Portugal para pedir permissão para papai para permanecer praticando pinturas, preferindo, portanto, Paris. Partindo para Paris, passou pelos Pirineus, pois pretendia pintá-los. Pareciam plácidos, porém, pesaroso, percebeu penhascos pedregosos, preferindo pintá-los parcialmente, pois perigosas pedras pareciam precipitar-se principalmente pelo Pico, porque pastores passavam pelas picadas para pedir pousada, provocando provavelmente pequenas perfurações, pois, pelo passo percorriam, permanentemente, possantes potrancas. Pisando Paris, permissão para pintar palácios pomposos, procurando pontos pitorescos, pois, para pintar pobreza, precisaria percorrer pontos perigosos, pestilentos, perniciosos, preferindo Pedro Paulo precaver-se. Profundas privações passou Pedro Paulo. Pensava poder prosseguir pintando, porém, pretas previsões passavam pelo pensamento, provocando profundos pesares, principalmente por pretender partir prontamente para Portugal. Povo previdente! Pensava Pedro Paulo... Preciso partir para Portugal porque pedem para prestigiar patrícios, pintando principais portos portugueses. Paris! Paris! Proferiu Pedro Paulo.

- Parto, porém penso pintá-la permanentemente, pois pretendo progredir.

Pisando Portugal, Pedro Paulo procurou pelos pais, porém, Papai Procópio partira para Província. Pedindo provisões, partiu prontamente, pois precisava pedir permissão para Papai Procópio para prosseguir praticando pinturas. Profundamente pálido, perfez percurso percorrido pelo pai.

Pedindo permissão, penetrou pelo portão principal. Porém, Papai Procópio puxando-o pelo pescoço proferiu: - Pediste permissão para praticar pintura, porém, praticando, pintas pior.

Primo Pinduca pintou perfeitamente prima Petúnia. Porque pintas porcarias?

- Papai, - proferiu Pedro Paulo - pinto porque permitiste, porém, preferindo, poderei procurar profissão própria para poder provar perseverança, pois pretendo permanecer por Portugal.

Pegando Pedro Paulo pelo pulso, penetrou pelo patamar, procurando pelos pertences, partiu prontamente, pois pretendia pôr Pedro Paulo para praticar profissão perfeita: pedreiro!

Passando pela ponte precisaram pescar para poderem prosseguir peregrinando.

Primeiro, pegaram peixes pequenos, porém, passando pouco prazo, pegaram pacus, piaparas, pirarucus. Partiram pela picada próxima, pois pretendiam pernoitar pertinho, para procurar primo Péricles primeiro. Pisando por pedras pontudas, Papai Procópio procurou Péricles, primo próximo, pedreiro profissional perfeito. Poucas palavras proferiram, porém prometeu pagar pequena parcela para Péricles profissionalizar Pedro Paulo. Primeiramente, Pedro Paulo pegava pedras, porém, Péricles pediu-lhe para pintar prédios, pois precisava pagar pintores práticos.

Particularmente Pedro Paulo preferia pintar prédios. Pereceu pintando prédios para Péricles, pois precipitou-se pelas paredes pintadas. Pobre Pedro Paulo, pereceu pintando...

Permita-me, pois, pedir perdão pela paciência, pois pretendo parar para pensar... Para parar preciso pensar. Pensei. Portanto, pronto, pararei.

E você ainda se acha o máximo quando consegue dizer: "O Rato Roeu a Rica" ou "Roupa do Rei de Roma."?



http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php?op=curiosidades/docs/alinguadope

14
Dez07

A língua do pê

wellcorp

A língua do pê

(Hélio Consolaro )

A língua permite algumas brincadeiras, aliás, na sua função poética está também o lúdico. Brincar com as palavras é também compor um poema. Leia abaixo:
Pedro Paulo Pereira Pinto, pequeno pintor português, pintava portas, paredes, portais. Porém pediu para parar porque preferiu pintar panfletos. Partindo para Piracicaba, pintou prateleiras para poder progredir. Posteriormente, partiu para Pirapora. Pernoitando, prosseguiu para Paranavaí, pois pretendia praticar pinturas para pessoas pobres. Porém, pouco praticou, porque Padre Paulo pediu para pintar panelas, porém, posteriormente, pintou pratos para poder pagar promessas. Pálido, porém personalizado, preferiu partir para Portugal para pedir permissão para papai para permanecer praticando pinturas, preferindo, portanto, Paris. Partindo para Paris, passou pelos Pirineus, pois pretendia pintá-los. Pareciam plácidos, porém, pesaroso, percebeu penhascos pedregosos, preferindo pintá-los parcialmente, pois perigosas pedras pareciam precipitar-se principalmente pelo Pico, porque pastores passavam pelas picadas para pedir pousada, provocando provavelmente pequenas perfurações, pois, pelo passo percorriam, permanentemente, possantes potrancas. Pisando Paris, permissão para pintar palácios pomposos, procurando pontos pitorescos, pois, para pintar pobreza, precisaria percorrer pontos perigosos, pestilentos, perniciosos, preferindo Pedro Paulo precaver-se. Profundas privações passou Pedro Paulo. Pensava poder prosseguir pintando, porém, pretas previsões passavam pelo pensamento, provocando profundos pesares, principalmente por pretender partir prontamente para Portugal. Povo previdente! Pensava Pedro Paulo... Preciso partir para Portugal porque pedem para prestigiar patrícios, pintando principais portos portugueses. Paris! Paris! Proferiu Pedro Paulo.

- Parto, porém penso pintá-la permanentemente, pois pretendo progredir.

Pisando Portugal, Pedro Paulo procurou pelos pais, porém, Papai Procópio partira para Província. Pedindo provisões, partiu prontamente, pois precisava pedir permissão para Papai Procópio para prosseguir praticando pinturas. Profundamente pálido, perfez percurso percorrido pelo pai.

Pedindo permissão, penetrou pelo portão principal. Porém, Papai Procópio puxando-o pelo pescoço proferiu: - Pediste permissão para praticar pintura, porém, praticando, pintas pior.

Primo Pinduca pintou perfeitamente prima Petúnia. Porque pintas porcarias?

- Papai, - proferiu Pedro Paulo - pinto porque permitiste, porém, preferindo, poderei procurar profissão própria para poder provar perseverança, pois pretendo permanecer por Portugal.

Pegando Pedro Paulo pelo pulso, penetrou pelo patamar, procurando pelos pertences, partiu prontamente, pois pretendia pôr Pedro Paulo para praticar profissão perfeita: pedreiro!

Passando pela ponte precisaram pescar para poderem prosseguir peregrinando.

Primeiro, pegaram peixes pequenos, porém, passando pouco prazo, pegaram pacus, piaparas, pirarucus. Partiram pela picada próxima, pois pretendiam pernoitar pertinho, para procurar primo Péricles primeiro. Pisando por pedras pontudas, Papai Procópio procurou Péricles, primo próximo, pedreiro profissional perfeito. Poucas palavras proferiram, porém prometeu pagar pequena parcela para Péricles profissionalizar Pedro Paulo. Primeiramente, Pedro Paulo pegava pedras, porém, Péricles pediu-lhe para pintar prédios, pois precisava pagar pintores práticos.

Particularmente Pedro Paulo preferia pintar prédios. Pereceu pintando prédios para Péricles, pois precipitou-se pelas paredes pintadas. Pobre Pedro Paulo, pereceu pintando...

Permita-me, pois, pedir perdão pela paciência, pois pretendo parar para pensar... Para parar preciso pensar. Pensei. Portanto, pronto, pararei.

E você ainda se acha o máximo quando consegue dizer: "O Rato Roeu a Rica" ou "Roupa do Rei de Roma."?



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14
Dez07

Vozes de animais

wellcorp


Vozes de animais e barulhos ou ruídos de coisas

(Fonte: Dicionário Michaelis)
Abelha - azoinar, sussurrar, zinir, ziziar, zoar, zonzonear, zuir, zunzum, zumbar, zumbir, zumbrar, zunzir, zunzar, zunzilular, zunzunar
Abutre, açor - grasnar
Águia - borbolhar, cachoar, chapinhar, chiar, escachoar, murmurar, rufar, rumorejar, sussurrar, trapejar, crocitar, grasnar, gritar, piar
Andorinha - chilrar, chilrear, gazear, gorjear, grinfar, trinfar, trissar, zinzilular
Andorinhão - crocitar, piar
Anho - balar, mugir
Anhuma - cantar, gritar
Anta - assobiar
Anum - piar
Apito - assobiar, silvar, trilar
Araponga - bigornear, golpear, gritar, martelar, retinir, serrar, soar, tinir
Arapuá - V abelha
Arara - chalrar, grasnar, gritar, palrar, taramelar
Arganaz - chiar, guinchar
Ariranha - regougar
Árvore - farfalhar, murmurar, ramalhar, sussurrar
Asa - ruflar
Asno - V burro
Auroque - berrar
Avestruz - grasnar, roncar, rugir
Azulão - cantar, gorjear, trinar
Bacurau - gemer, piar
Baioneta - tinir
Baitaca - chalrar, chalrear, palrar
Bala - assobiar, esfuziar, sibilar, zumbir, zunir
Baleia - bufar
Bandeira - trepear
Beija-flor - trissar
Beijo - estalar, estalejar
Bem-te-vi - cantar, estridular, assobiar
Besouro - zoar, zumbir, zunir
Bezerro - berrar, mugir
Bife - rechinar
Bisão - berrar
Bode - balar, blalir, berrar, bodejar, gaguejar
Boi - mugir, berrar, bufar, arruar
Bomba - arrebentar, estourar, estrondar, estrondear
Búfalo - bramar, berrar, mugir
Bugio - berrar
Burro - azurrar, ornear, ornejar, rebusnar, relinchar, zornar, zunar, zurrar
Buzina - fonfonar
Cabra, cabrito - balar, balir, berregar, barregar, berrar, bezoar
Caburé - piar, rir, silvar
Caititu - grunhir, roncar
Calhandra - chilidar, gazear, grinfar, trinfar, trissar, zinzilular
Cambaxira, corruíra, garrincha - chilrear, galrear
Camelo - blaterar
Campainha - soar, tilintar, tocar
Camundongo - chiar, guinchar
Canário - cantar, dobrar, modular, trilar, trinar
Canhão - atroar, estrondear, estrugir, retumbar, ribombar, troar
Cão - acuar, aulir, balsar, cainhar, cuincar, esganiçar, ganir, ganizar, ladrar, latir, maticar, roncar, ronronar, rosnar, uivar, ulular
Capivara - assobiar
Caracará - crocitar, grasnar, grasnir
Carneiro - balar, balir, berrar, berregar
Cavalo - bufar, bufir, nitrir, relinchar, rifar, rinchar
Cegonha - gloterar, grasnar
Chacal - regougar
Champanha - espocar, estourar
Chave - trincar
Cigarra - cantar, chiar, chichiar, ciciar, cigarrear, estridular, estrilar, fretenir, rechiar, rechinar, retinir, zangarrear, zinir, ziziar, zunir
Cisne - arensar
Cobra - assobiar, chocalhar, guizalhar, sibilar, silvar
Codorna - piar, trilar
Coelho - chiar, guinchar
Condor - crocitar
Copo - retinir, tilintar, tinir
Coração - bater, palpitar, pulsar, arquejar, latejar
Cordeiro - berregar, balar, balir
Corneta - tocar, estrugir
Corrupião - cantar, gorjear, trinar
Coruja - chirrear, corujar, crocitar, crujar, piar, rir
Corvo - corvejar, crocitar, grasnar, crasnar
Cotovia - cantar, gorjear
Cozimento - escachoar, acachoar, grugulejar, grugrulhar
Crocodilo - bramir, rugir
Cuco - cucular, cuar
Curiango - gemer
Cutia - gargalhar, bufar
Dedo - estalar, estrincar
Dente - estalar, estalejar, ranger, ringir, roçar
Doninha - chiar, guinchar
Dromedário - blaterar
Égua - V cavalo
Elefante - barrir, bramir
Ema - grasnar, suspirar
Espada - entrechocar, tinir
Espingarda - espocar
Esporas - retinir, tinir
Estorninho - pissitar
Falcão - crocitar, piar, pipiar
Ferreiro - V araponga
Flecha - assobiar, sibilar, silvar, zunir
Fogo - crepitar, estalar
Foguete - chiar, rechiar, esfuziar, espocar, estourar, estrondear, pipocar
Fole - arquejar, ofegar, resfolegar
Folha - farfalhar, marulhar, sussurrar
Fonte - borbulhar, cachoar, cantar, murmurar, murmurinhar, sussurrar, trapejar
Fritura - chiar, rechiar, rechinar
Gafanhoto - chichiar, ziziar
Gaio - gralhar, grasnar
Gaivota - grasnar, pipilar
Galinha d'angola - fraquejar
Galinha - carcarejar, cacarecar, carcarcar
Galo - cantar, clarinar, cocoriar, cocoricar, cucuricar, cucuritar
Gambá - chiar, guinchar, regougar
Ganso - gasnar, gritar
Garça - gazear
Gato - miar, resbunar, resmonear, ronronar, roncar, chorar, choradeira
Gaturamo - gemer
Gavião - guinchar
Gongo - ranger, vibrar, soar
Gralha - crocitar, gralhar, gralhear, grasnar
Graúna - cantar, trinar
Grilo - chirriar, crilar, estridular, estrilar, guizalhar, trilar, tritrilar, tritrinar
Grou - grasnar, grugrulhar, gruir, grulhar
Guará (ave pernalta) - gazear, grasnar
Guará - uivar
Hiena - gargalhar, gargalhear, gargalhadear
Hipopótamo - grunhir
Inambu - piar
Inseto - chiar, chirrear, estridular, sibilar, silvar, zinir, ziziar, zoar, zumbir, zunir, zunitar
Jaburu - gritar
Jacu - grasnar
Jaguar - V onça
Jandaia - V arara
Javali - arruar, cuinchar, cuinhar, grunhir, roncar, rosnar
Jia - coaxar
Jumento - azurrar, ornear, ornejar, rebusnar, zornar, zurrar
Juriti - arrular, arulhar, soluçar, turturinar
Lagarto - gecar
Lama (quando batida com as mãos, com os pés ou com o corpo) - chapinhar
Leão - bramar, bramir, fremir, rugir, urrar
Lebre - assobiar, guinchar
Leitão - bacorejar, cuinchar, cuinhar
Leopardo - bramar, bramir, fremir, rugir, urrar
Líquido - gluglu, gorgolejar
Lobo - ladrar, uivar, ulular
Locomotiva - apitar, resfolegar, silvar
Lontra - assobiar, chiar, guinchar
Macaco - assobiar, guinchar, cuinchar
Macuco - V inambu
Maitá, maitaca - V baitaca
Mar - bramar, bramir, marulhar, mugir, rebramar, roncar
Marreco - grasnar, grasnir, grassitar
Martelo - malhar
Melro - assobiar, cantar
Metal - tinir
Metralhadora - pipocar, pipoquear, matraquear, matraquejar
Milhafre - crocitar, grasnar
Milheira - tinir
Mocho - chirrear, corujar, crocitar, piar, rir
Morcego - farfalhar, trissar
Mosca - zinir, zoar, zumbir, zunir, zumbar, ziziar, zonzonear, sussurrar, azoinar, zunzum
Motor - roncar, zunir, assobiar, zumbir
Mula - V burro
Mutum - cantar, gemer, piar
Onça - esturrar, miar, rugir, urrar
Onda - bater, bramir, estrondar, murmurar
Ovelha - balar, balir, berrar, berregar
Paca - assobiar
Palmas (das mãos) - estalar, estrepitar, estrugir, soar, vibrar
Pandeiro - rufar
Pantera - miar, rosnar, rugir
Papagaio - charlar, charlear, falar, grazinar, parlar, palrear, taramelar, tartarear
Pardal - chaiar, chilrear, piar, pipilar
Passarinho - apitar, assobiar, cantar, chalrar, chichiar, chalrear, chiar, chilrar, chilrear, chirrear, dobrar, estribilhar, galrar, galrear, garrir, garrular, gazear, gazilar, gazilhar, gorjear, granizar, gritar, modular, palrar, papiar, piar, pipiar, pipilar, pipitar, ralhar, redobrar, regorjear, soar, suspirar, taralhar, tinir, tintinar, tintinir, tintlar, tintilar, trilar, trinar, ulular, vozear
Patativa - cantar, soluçar
Pato - grasnar, grassitar
Pavão - pupilar
Pega - palrar
Peixe - roncar
Pelicano - grasnar, grassitar
Perdigão, perdiz - cacarejar, piar, pipiar
Periquito - chalrar, chalrear, palrar
Pernilongo - cantar, zinir, zuir, zumbir, zunzunar
Peru - gluginejar, gorgolejar, grugrulejar, grugrulhar, grulhar
Pião (brinquedo) - ró-ró, roncar, zunir
Pica-pau - estridular, restridular
Pintarroxo - cantar, gorjear, trinar
Pintassilgo - cantar, dobrar, modular, trilar
Pinto - piar, pipiar, pipilar
Pombo - arrolar, arrular, arrulhar, gemer, rular, rulhar, suspirar, turturilhar, turturinar.
Porco - grunhir, guinchar, roncar
Porta - bater, ranger, chiar, guinchar
Poupa - arrulhar, gemer, rulhar, turturinar
Rã - coaxar, engrolar, gasnir, grasnar, grasnir, malhar, rouquejar
Raposa - regougar, roncar, uivar
Rato - chiar, guinchar
Rinoceronte - bramir, grunhir
Rola - V pombo
Rouxinol - cantar, gorjear, trilar, trinar
Sabiá - cantar, gorjear, modular, trinar
Sagüi - assobiar, guinchar
Sapo - coaxar, gargarejar, grasnar, grasnir, roncar, rouquejar
Seriema - cacarejar, gargalhar
Serpente - V cobra
Tico-tico - cantar, gorjear, trinar
Tigre - bramar, bramir, miar, rugir, urrar
Tordo - trucilar
Toupeira - chiar
Touro - berrar, bufar, mugir, urrar
Tucano - chalrar
Urso - bramar, bramir, rugir
Urubu - V corvo
Vaca - berrar, mugir
Veado - berrar, bramar, rebramar
Vespa - V abelha
Zebra - relinchar, zurrar


14
Dez07

Vozes de animais

wellcorp


Vozes de animais e barulhos ou ruídos de coisas

(Fonte: Dicionário Michaelis)
Abelha - azoinar, sussurrar, zinir, ziziar, zoar, zonzonear, zuir, zunzum, zumbar, zumbir, zumbrar, zunzir, zunzar, zunzilular, zunzunar
Abutre, açor - grasnar
Águia - borbolhar, cachoar, chapinhar, chiar, escachoar, murmurar, rufar, rumorejar, sussurrar, trapejar, crocitar, grasnar, gritar, piar
Andorinha - chilrar, chilrear, gazear, gorjear, grinfar, trinfar, trissar, zinzilular
Andorinhão - crocitar, piar
Anho - balar, mugir
Anhuma - cantar, gritar
Anta - assobiar
Anum - piar
Apito - assobiar, silvar, trilar
Araponga - bigornear, golpear, gritar, martelar, retinir, serrar, soar, tinir
Arapuá - V abelha
Arara - chalrar, grasnar, gritar, palrar, taramelar
Arganaz - chiar, guinchar
Ariranha - regougar
Árvore - farfalhar, murmurar, ramalhar, sussurrar
Asa - ruflar
Asno - V burro
Auroque - berrar
Avestruz - grasnar, roncar, rugir
Azulão - cantar, gorjear, trinar
Bacurau - gemer, piar
Baioneta - tinir
Baitaca - chalrar, chalrear, palrar
Bala - assobiar, esfuziar, sibilar, zumbir, zunir
Baleia - bufar
Bandeira - trepear
Beija-flor - trissar
Beijo - estalar, estalejar
Bem-te-vi - cantar, estridular, assobiar
Besouro - zoar, zumbir, zunir
Bezerro - berrar, mugir
Bife - rechinar
Bisão - berrar
Bode - balar, blalir, berrar, bodejar, gaguejar
Boi - mugir, berrar, bufar, arruar
Bomba - arrebentar, estourar, estrondar, estrondear
Búfalo - bramar, berrar, mugir
Bugio - berrar
Burro - azurrar, ornear, ornejar, rebusnar, relinchar, zornar, zunar, zurrar
Buzina - fonfonar
Cabra, cabrito - balar, balir, berregar, barregar, berrar, bezoar
Caburé - piar, rir, silvar
Caititu - grunhir, roncar
Calhandra - chilidar, gazear, grinfar, trinfar, trissar, zinzilular
Cambaxira, corruíra, garrincha - chilrear, galrear
Camelo - blaterar
Campainha - soar, tilintar, tocar
Camundongo - chiar, guinchar
Canário - cantar, dobrar, modular, trilar, trinar
Canhão - atroar, estrondear, estrugir, retumbar, ribombar, troar
Cão - acuar, aulir, balsar, cainhar, cuincar, esganiçar, ganir, ganizar, ladrar, latir, maticar, roncar, ronronar, rosnar, uivar, ulular
Capivara - assobiar
Caracará - crocitar, grasnar, grasnir
Carneiro - balar, balir, berrar, berregar
Cavalo - bufar, bufir, nitrir, relinchar, rifar, rinchar
Cegonha - gloterar, grasnar
Chacal - regougar
Champanha - espocar, estourar
Chave - trincar
Cigarra - cantar, chiar, chichiar, ciciar, cigarrear, estridular, estrilar, fretenir, rechiar, rechinar, retinir, zangarrear, zinir, ziziar, zunir
Cisne - arensar
Cobra - assobiar, chocalhar, guizalhar, sibilar, silvar
Codorna - piar, trilar
Coelho - chiar, guinchar
Condor - crocitar
Copo - retinir, tilintar, tinir
Coração - bater, palpitar, pulsar, arquejar, latejar
Cordeiro - berregar, balar, balir
Corneta - tocar, estrugir
Corrupião - cantar, gorjear, trinar
Coruja - chirrear, corujar, crocitar, crujar, piar, rir
Corvo - corvejar, crocitar, grasnar, crasnar
Cotovia - cantar, gorjear
Cozimento - escachoar, acachoar, grugulejar, grugrulhar
Crocodilo - bramir, rugir
Cuco - cucular, cuar
Curiango - gemer
Cutia - gargalhar, bufar
Dedo - estalar, estrincar
Dente - estalar, estalejar, ranger, ringir, roçar
Doninha - chiar, guinchar
Dromedário - blaterar
Égua - V cavalo
Elefante - barrir, bramir
Ema - grasnar, suspirar
Espada - entrechocar, tinir
Espingarda - espocar
Esporas - retinir, tinir
Estorninho - pissitar
Falcão - crocitar, piar, pipiar
Ferreiro - V araponga
Flecha - assobiar, sibilar, silvar, zunir
Fogo - crepitar, estalar
Foguete - chiar, rechiar, esfuziar, espocar, estourar, estrondear, pipocar
Fole - arquejar, ofegar, resfolegar
Folha - farfalhar, marulhar, sussurrar
Fonte - borbulhar, cachoar, cantar, murmurar, murmurinhar, sussurrar, trapejar
Fritura - chiar, rechiar, rechinar
Gafanhoto - chichiar, ziziar
Gaio - gralhar, grasnar
Gaivota - grasnar, pipilar
Galinha d'angola - fraquejar
Galinha - carcarejar, cacarecar, carcarcar
Galo - cantar, clarinar, cocoriar, cocoricar, cucuricar, cucuritar
Gambá - chiar, guinchar, regougar
Ganso - gasnar, gritar
Garça - gazear
Gato - miar, resbunar, resmonear, ronronar, roncar, chorar, choradeira
Gaturamo - gemer
Gavião - guinchar
Gongo - ranger, vibrar, soar
Gralha - crocitar, gralhar, gralhear, grasnar
Graúna - cantar, trinar
Grilo - chirriar, crilar, estridular, estrilar, guizalhar, trilar, tritrilar, tritrinar
Grou - grasnar, grugrulhar, gruir, grulhar
Guará (ave pernalta) - gazear, grasnar
Guará - uivar
Hiena - gargalhar, gargalhear, gargalhadear
Hipopótamo - grunhir
Inambu - piar
Inseto - chiar, chirrear, estridular, sibilar, silvar, zinir, ziziar, zoar, zumbir, zunir, zunitar
Jaburu - gritar
Jacu - grasnar
Jaguar - V onça
Jandaia - V arara
Javali - arruar, cuinchar, cuinhar, grunhir, roncar, rosnar
Jia - coaxar
Jumento - azurrar, ornear, ornejar, rebusnar, zornar, zurrar
Juriti - arrular, arulhar, soluçar, turturinar
Lagarto - gecar
Lama (quando batida com as mãos, com os pés ou com o corpo) - chapinhar
Leão - bramar, bramir, fremir, rugir, urrar
Lebre - assobiar, guinchar
Leitão - bacorejar, cuinchar, cuinhar
Leopardo - bramar, bramir, fremir, rugir, urrar
Líquido - gluglu, gorgolejar
Lobo - ladrar, uivar, ulular
Locomotiva - apitar, resfolegar, silvar
Lontra - assobiar, chiar, guinchar
Macaco - assobiar, guinchar, cuinchar
Macuco - V inambu
Maitá, maitaca - V baitaca
Mar - bramar, bramir, marulhar, mugir, rebramar, roncar
Marreco - grasnar, grasnir, grassitar
Martelo - malhar
Melro - assobiar, cantar
Metal - tinir
Metralhadora - pipocar, pipoquear, matraquear, matraquejar
Milhafre - crocitar, grasnar
Milheira - tinir
Mocho - chirrear, corujar, crocitar, piar, rir
Morcego - farfalhar, trissar
Mosca - zinir, zoar, zumbir, zunir, zumbar, ziziar, zonzonear, sussurrar, azoinar, zunzum
Motor - roncar, zunir, assobiar, zumbir
Mula - V burro
Mutum - cantar, gemer, piar
Onça - esturrar, miar, rugir, urrar
Onda - bater, bramir, estrondar, murmurar
Ovelha - balar, balir, berrar, berregar
Paca - assobiar
Palmas (das mãos) - estalar, estrepitar, estrugir, soar, vibrar
Pandeiro - rufar
Pantera - miar, rosnar, rugir
Papagaio - charlar, charlear, falar, grazinar, parlar, palrear, taramelar, tartarear
Pardal - chaiar, chilrear, piar, pipilar
Passarinho - apitar, assobiar, cantar, chalrar, chichiar, chalrear, chiar, chilrar, chilrear, chirrear, dobrar, estribilhar, galrar, galrear, garrir, garrular, gazear, gazilar, gazilhar, gorjear, granizar, gritar, modular, palrar, papiar, piar, pipiar, pipilar, pipitar, ralhar, redobrar, regorjear, soar, suspirar, taralhar, tinir, tintinar, tintinir, tintlar, tintilar, trilar, trinar, ulular, vozear
Patativa - cantar, soluçar
Pato - grasnar, grassitar
Pavão - pupilar
Pega - palrar
Peixe - roncar
Pelicano - grasnar, grassitar
Perdigão, perdiz - cacarejar, piar, pipiar
Periquito - chalrar, chalrear, palrar
Pernilongo - cantar, zinir, zuir, zumbir, zunzunar
Peru - gluginejar, gorgolejar, grugrulejar, grugrulhar, grulhar
Pião (brinquedo) - ró-ró, roncar, zunir
Pica-pau - estridular, restridular
Pintarroxo - cantar, gorjear, trinar
Pintassilgo - cantar, dobrar, modular, trilar
Pinto - piar, pipiar, pipilar
Pombo - arrolar, arrular, arrulhar, gemer, rular, rulhar, suspirar, turturilhar, turturinar.
Porco - grunhir, guinchar, roncar
Porta - bater, ranger, chiar, guinchar
Poupa - arrulhar, gemer, rulhar, turturinar
Rã - coaxar, engrolar, gasnir, grasnar, grasnir, malhar, rouquejar
Raposa - regougar, roncar, uivar
Rato - chiar, guinchar
Rinoceronte - bramir, grunhir
Rola - V pombo
Rouxinol - cantar, gorjear, trilar, trinar
Sabiá - cantar, gorjear, modular, trinar
Sagüi - assobiar, guinchar
Sapo - coaxar, gargarejar, grasnar, grasnir, roncar, rouquejar
Seriema - cacarejar, gargalhar
Serpente - V cobra
Tico-tico - cantar, gorjear, trinar
Tigre - bramar, bramir, miar, rugir, urrar
Tordo - trucilar
Toupeira - chiar
Touro - berrar, bufar, mugir, urrar
Tucano - chalrar
Urso - bramar, bramir, rugir
Urubu - V corvo
Vaca - berrar, mugir
Veado - berrar, bramar, rebramar
Vespa - V abelha
Zebra - relinchar, zurrar


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